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Fazer História 1

Todas as áreas de conhecimento estão sofrendo com a convicção subjetiva e prévia de todos

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2018 | 02h00

Debati com um grande amigo historiador nossas concepções sobre o “estado da arte” do nosso ofício. Luiz Estevam de Oliveira Fernandes é autor também aqui, pois nossas ideias se misturaram. Vamos a uma série sobre passado, História e Brasil atual. 

Os médicos têm importância extrema em toda sociedade e trabalham com o valor mais elevado possível: a vida. Nada mais justo que sejam protegidos por extensa legislação. Exercer medicina sem ter o devido e reconhecido diploma caracteriza um exercício ilegal da profissão e é crime. Anunciar cura secreta e infalível constitui charlatanismo, também previsto nas leis. Prescrever substâncias pode enquadrar alguém no curandeirismo, igualmente fora do amparo legal. Como se vê, os muitos anos de extenuantes estudos que geram uma médica ou um médico constituem a base para a sociedade aceitar a demarcação de um espaço de exclusividade. Exercer atividades da área da medicina sem vivenciar o processo oficial de formação é proibido. Poucos duvidam da justiça das normas vigentes.

Com o historiador profissional isso não ocorre. Talvez o primeiro elemento a se levar em conta é algo que espantará a muitos: não existe a profissão de historiador no Brasil. Existe a profissão de geógrafo, por exemplo, mas não a de historiador. No meu Imposto de Renda eu sempre tive de assinalar profissional de ensino superior, ou seja, professor, como atividade original. Legalmente, minha função não existe. 

Não há a profissão e, claro, não existe uma OAB, por exemplo, no campo dos historiadores. Não existe uma entidade que estabeleça algo como uma carteira, tão custosa e desejada pelos que concluíram seus estudos de Direito. 

Além do enunciado, há uma questão importante. Mesmo que existam teorias elaboradas sobre a concepção do passado e conceitos como documento/monumento, tempo, memória, etc., na prática, um bom texto acadêmico de história pode ser lido por um público mais amplo, mesmo sem formação na área. Eu não entenderia uma linha de física quântica, jamais decifraria um trabalho de química orgânica e teria imensa dificuldade em ler um simples artigo sobre uma nova técnica cirúrgica. Por quê? Tais áreas têm extenso vocabulário técnico que refulge em qualquer texto. Os historiadores têm densa reflexão teórica, porém, o resultado final, um livro de história, com raras exceções, pode ser lido, talvez com alguma dificuldade, pelo público que tenha alfabetização compatível. Escondemos a parte mais complexa da atividade em andaimes teóricos invisíveis ou notas de rodapé que podem ser puladas pelo grande público. Há mais: obras importantes para nossa área foram escritas por pessoas sem formação específica, como Os Donos do Poder, do jurista Raymundo Faoro. Há também o caso de pessoas notáveis na esfera da História como Evaldo Cabral de Mello que é diplomata como atividade oficial, mesmo com boa formação na Filosofia da História. Mello escreveu obras insuperáveis como referência no campo, mas, apesar da erudição e qualidade dos textos, creio, deve declarar ao Imposto de Renda que é diplomata. 

Ainda que hoje todos tenham certeza sobre tudo, especialmente sobre os temas que escapam completamente ao domínio do emissor, é provável que historiador ouça mais palpites de leigos do que médicos. Sim, eu sei, as pessoas bosquejam sobre os filhos de Hipócrates; porém, sobre os filhos de Heródoto, elas emitem tratados. Há mais chance de alguém se calar quando o médico afirma que “diabetes melito do tipo dois pode apresentar complicações macroangiopáticas e microangiopáticas” do que quando um historiador discute a questão do racismo brasileiro. 

Todo historiador profissional já conviveu com o debate, por exemplo, nos moldes seguintes: após percorrer uma trajetória formativa de 15 a 20 anos entre sua graduação, mestrado, doutorado e livre-docência, um pesquisador tornou-se referência em história do racismo republicano. Trabalhou em arquivos por duas décadas e publicou livros e artigos importantes sobre o tema. Ainda assim, quando afirma algo sobre sua especialidade, ouve de alguém que nunca dedicou 15 minutos ao tema a pérola: acho que no Brasil não existe racismo de verdade... 

Não se trata de argumento de autoridade, algo da cepa de “escute-me porque sou historiador”, mas da possibilidade técnica de emitir análises a partir de formação específica. Historiadores erram? Com frequência; porém médicos e dentistas também. Não se trata aqui de uma suposta infalibilidade do profissional da memória, entretanto de um anti-intelectualismo crescente e de uma rejeição do método. Todos os profissionais, em qualquer área, erram e todo conhecimento é, por natureza, limitado. Porém, façamos a pergunta reta e direta: em caso de apendicite qual a pessoa que você gostaria de ter por perto? Uma pessoa de muito pensamento positivo e que já viu um caso similar na juventude ou um médico?

Dou um exemplo frequente. Um indivíduo afirma que a vida era muito melhor durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Se eu sentir que existe seriedade para saber, indico obras variadas para que ele reflita. Digamos, livros iniciais que debatam o modelo de Milagre Econômico ou a atuação do aparato repressivo. Sugiro dez livros, algo que daria ao interessado amador uma leitura básica para buscar um primeiro contato com o tema. Recebo quase sempre a mesma resposta: não preciso de livros, eu vivia naquele período e eu estava bem. Surge, repetidamente, a minha resposta “preferida”: minha avó dizia que só gente safada sofria, quem era trabalhador e gente de bem estava livre de perseguições. As pesquisas sobre cem milhões de brasileiros caem por terra e a opinião da Vovó Mafalda brilha e soterra arquivos, textos, documentos e pesquisas. Imagino se alguns alemães não diziam o mesmo: eu não era judeu e nem comunista, o nazismo era bom, pois não me perseguia...

Paciência é uma grande virtude. Todas as áreas de conhecimento estão sofrendo com a convicção subjetiva e prévia de todos. Há um anti-intelectualismo notável no Brasil de 2018. Talvez o ataque não seja porque a produção de historiadores esteja errada como muitos afirmam, mas por estar certa e incômoda. Bom domingo a todos vocês. 

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