Fazendo música na corte de D. João

Cravista recria anos vividos pelo austríaco Sigismund Neukomm no Rio colonial

Júlio Medaglia, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

Uma bem-vinda "síndrome Chico Xavier" vem se infiltrando na cultura brasileira. Recentemente o irrequieto poeta Mario Chamie transvestiu-se em seu homônimo de Andrade e abordou criticamente e sem pudores a movimentação cultural da Terra em seu tempo no livro Pauliceia Dilacerada. Não deixou sequer de explicitar os sentimentos e o desapontamento do poeta, escritor, animador cultural e músico quando este foi afastado da Secretaria da Cultura que havia criado, o que o levou a forte depressão.

Agora nos chega um livro sobre Sigismund Neukomm: Música Secreta, da cravista Rosana Lanzelotte. Escrevendo igualmente na primeira pessoa, ela incorpora a figura do músico austríaco que, mesmo exercendo importantes funções na vida cultural europeia, resolve vir ao Brasil, onde conviveu com destacadas personalidades da corte de d. João.

Conterrâneo e contemporâneo de Mozart, aluno predileto de Haydn, compositor que circulava nas mais importantes cortes europeias, para aqui veio a fim de "dar aulas de música" - sobretudo ao futuro imperador brasileiro, d. Pedro. Neukomm (1778-1858) era amigo e secretário de Talleyrand, colaborador de Napoleão e articulador político. Assim sendo, é difícil imaginar que ele aqui chegara apenas para ensinar o príncipe a harmonizar modinhas - há estudos que o apontam como espião.

O livro de Rosana Lanzelotte é de excelente qualidade editorial, rico em ilustrações e extremamente fiel às fontes. São de rigor acadêmico as citações, embora em linguagem fluente e de agradável leitura - a grande cravista se transveste em competente pesquisadora e escritora. O mais interessante nesse relato ano a ano da permanência de Neukomm no Brasil, porém, é apreciar seu deslumbramento com o que aqui encontrou. Primeiro, a figura do compositor mulato padre José Maurício, que considerou o maior improvisador ao cravo do mundo. Depois, com a cultura popular. Egresso das sofisticadas cortes de Viena, São Petersburgo e Paris, ele chega a esta colônia extrativista, repleta de escravos negros "incultos" e se delicia com o som das ruas. Compondo intensamente e utilizando temas nacionais dessa cultura espontânea, pode-se considerá-lo, assim, o primeiro "compositor brasileiro". Mais: pelos títulos das obras e motivos utilizados, um verdadeiro cronista de costumes do País, que amou intensamente.

É de se esperar que também o espírito de José Maurício "baixe" em Rosana Lanzelotte e que ela, fazendo trabalho semelhante ao realizado agora com Neukomm, complete o quadro da música brasileira em um de seus melhores momentos, o da primeira metade do século 19.

Júlio Medaglia é maestro, autor de música impopular (global), entre outros

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