Fazendo música. Jogando bola

Fazendo música. Jogando bola

A Copa na África do Sul era tudo o que um time de músicos precisava para mostrar ao mundo que ali se criam sons que ninguém imagina

Antonio Duarte, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Seria preciso mais que um apartheid inteiro para fazer com que os amigos Ramoba e Makananise, crescidos no gueto de Soweto, e Buthelezi e Mcata, filhos da sangrenta região de East Rand, queimassem suas guitarras e declarassem ódio ao rock and roll dos imperialistas. O regime que posicionava brancos e negros em lados opostos de um ringue que levou 42 anos para ser desfeito na África do Sul - de 1948 a 1990 - não fez muito sucesso na música, ainda que tenha deixado reflexos na produção cultural de um país acostumado a ser visto em branco e preto. A Copa do Mundo leva os olhares para a nação de Nelson Mandela a partir do dia 11 de junho, e os ouvidos já podem ficar bem abertos. As bandas e os artistas que surgem ali não são só os percussionistas que as TVs mostrarão embalando torcidas nos estádios de futebol. A música que os sul-africanos fazem hoje, e que começa a ganhar outras terras pela internet, é tão rica quanto a história de seu país.

 

Ouça trechos das músicas de artistas africanos

Os quatro amigos roqueiros desafiaram a lógica da segregação e foram fazer barulhos cheios de lições de Led Zeppelin, Pink Floyd e Smashing Pumpkins. "Fazemos rock influenciados por músicos com os quais tivemos contato no colegial", diz o baterista Tshepang. Sob o nome BLK JKS, o grupo passou a excursionar em outros países e obteve considerável sucesso no exterior. Seus dois discos, Mystery e After Robots, foram bem avaliados pela crítica e ajudaram o grupo a conquistar estrangeiros.

A internet faz o caminho inverso ao do apartheid e dá a chance aos músicos de recuperar as notas perdidas. "A informação chegou lá. Há hoje a influência sobretudo da música americana", afirma a discotecária Sônia Abreu, especialista nos sons da África.

Jovens se reúnem em shows e baladas para ouvir e produzir algo que mistura ritmos internacionais e musicalidade étnica. Um dos novos fenômenos do país responde pelo nome de Die Antwoord (leia mais na página D3), um grupo que combina rock com hip hop agressivo e é seguido por milhares de fãs que assistem a seus vídeos no YouTube. O jazz volta agora a ser popular entre os jovens e as bandas de rock compõem um cenário alternativo. Nomes como Amanda Tiffin e o trio The Bad Plus, que funde rock com o jazz sul-africano, arrebatam fãs e boas avaliações da crítica.

O experimentalismo é hoje a marca da África do Sul. Jazzistas já reviravam o gênero dos americanos nos anos 1960, como Gideon Nxumalo, Philip Tabane e Todd Matshikiza, além do conjunto The Jazz Epistles, que teve apenas um álbum gravado no início da década. Há dez anos, o Cape Town International Jazz Festival reúne talentosos artistas locais ainda desconhecidos e nomes da música internacional.

Kwaito. A África do Sul pós-libertação de Nelson Mandela, em 1990, não se tornou exatamente um país em que brancos e negros cantam We Are The World de mãos dadas. A tensão ainda é sentida por quem percorre as ruas de Johannesburgo. O fim da segregação, no entanto, acabou com o engajamento poético dos músicos negros mais indignados, algo semelhante à diluição do discurso antiditadura na música brasileira. O kwaito, gênero antiguetos que surgiu nos anos 90, quando os negros começaram a poder falar mais alto, não é mais o mesmo. "O kwaito era a primeira chance que jovens de 20 anos ou menos tinham de falar o que pensavam. Eles tinham, pela primeira vez, liberdade total de expressão", conta Michael Nixon, professor de etnomusicologia da Universidade de Cape Town.

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