Fazendo do musical um gênero político

Mesmo quem não gosta de Lars Von Trier não pode negar a sua originalidade. Em Dançando no Escuro, filme que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes, o dinamarquês subverte um gênero consagrado, criando um musical anti-ilusionista.

O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2013 | 02h15

Parece contradição, mesmo porque o musical se baseie na aceitação tácita da ilusão, apesar do artificialismo. Pessoas não cantam diálogos, nem se exprimem em notas musicais. Mas, uma vez aceita essa fantasia, admite-se a premissa ficcional e vai-se em frente. Como, aliás, se faz na ópera, gênero tradicional do qual os musicais de cinema descendem.

De qualquer forma, Dançando no Escuro revela, a cada passo, os andaimes da sua estrutura cinematográfica. Para que não reste dúvida de que aquilo que se está vendo não é o real, mas a livre recriação do real. E não é menos "verdadeiro" por isso, porque a verdade é algo que se constrói no interior da obra. Apesar, desse distanciamento (ou talvez por causa dele), como não se comover com a história da imigrante checa vivida pela cantora islandesa Björk?

Pensando apenas na linha da narrativa, como distingui-la de um melodrama qualquer? Selma (Björk) é a imigrante que sofre de uma doença dos olhos que a levará à cegueira. Seu filho tem a mesma doença e a única esperança é uma operação que o salve. Para juntar dinheiro, a mãe é obrigada a uma vida miserável, em meio a gente inescrupulosa e ávida por tirar um pouco dos que menos têm.

Por aí se entende que Selma, para atenuar a vida miserável que leva, precise se apegar às fantasias dos antigos musicais. Temos aí um caso de metacinema, em que o filme comenta a si mesmo, usando a mesma linguagem que critica. Como uma peça de relojoaria que se montasse e desmontasse diante dos nossos olhos, sem jamais deixar de dizer a hora certa.

De resto, Von Trier, ao lado da preferência por dispositivos narrativos às vezes muito ardilosos, revela-se, sempre, um excelente diretor de atores e atrizes. O rendimento que consegue de Björk é admirável. Sua personagem é de uma passividade exasperante, para o espectador. Um ardil a mais. Quando torcemos para que um personagem aja, estamos já identificados a ele. E esse elo perdura, mesmo que as condições narrativas nos digam sempre que se trata apenas de um filme. Como se fosse pouco. / L.Z.O.

DANÇANDO NO ESCURO Diretor:

Lars Von Trier

Original:Dancer in

the Dark

Distribuidora: Versátil, R$ 53

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