Faz um samba aí, batera

Wilson das Neves já tocou com mais de 600 artistas. Agora, em seu 3º CD autoral, volta a mostrar que também é um grande cantor

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

"Enquanto tiver milho a gente faz pipoca." É desse jeito que Wilson das Neves define sua longevidade. Aos 74 anos, paladino da sabedoria popular e "rei da anedota", como classifica seu amigo de longa data em discos e palcos Chico Buarque, ele dá provas de não ser apenas um mestre das baquetas. Muito além de baterista e percussionista, faceta pela qual é mais conhecido, lançando o disco Pra Gente Fazer Mais um Samba, Das Neves reaparece cantando com a mesma elegância de antes e como exímio melodista.

É o terceiro álbum em que ele assume o microfone à frente de suas composições. Com os anteriores, O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996) e Brasão de Orfeu (2003), Das Neves conquistou o Prêmio Sharp com o primeiro e foi indicado para o Grammy Latino pelo segundo. Antes disso, já havia tocado com mais de 600 artistas. Na lista, Chico Buarque, Elis Regina, Ataulfo Alves, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Elizeth Cardoso, Sarah Vaughan, João Donato e Jamelão. "Cantando é a melhor maneira de mostrar minha música. Estou aprendendo, de um modo ou de outro é um começar. Depois de trabalhar com todos eles, sou um pouquinho de cada um, o resumo da ópera", diz Das Neves.

Em 56 anos de carreira, para ele fazer um samba realmente não precisa de quase nada, como sugere a primeira faixa, uma das sete parcerias com Paulo César Pinheiro. Personificação do malandro boa-praça, artigo que rareia com o passar dos dias, é o próprio Das Neves que assume não parar voluntariamente para compor. "A gente respira a música. A melodia vem do nada. Sou músico, não poeta", comenta.

Sabendo disso, mais uma vez Das Neves se cercou de um time de versadores de primeira. Com PC Pinheiro escreveu algumas joias, como Quem Espera Nunca Alcança, Passarinho de Gaiola (com a voz de Mariana Bernardes) e o grande destaque, Coquetel. "O Paulinho é meu guru, é um moço velho. Fala pouco, é igual ao Chico. E um é craque para o outro, eles falam isso sem estarem juntos, e eu desfruto", diz.

A amizade com Chico, que assina o encarte do disco, já dura 25 anos. No texto, rasgando elogios a Das Neves, ele escreve: "Escutei-o seguidamente com deleite, com um sorriso, com um ciúme danado dos seus parceiros." Os dois já tinham composto em parceria Grande Hotel, gravado no primeiro CD autoral de Das Neves.

Além de PC Pinheiro, os sambas de Das Neves ganharam palavras precisas de Nei Lopes, em Assédio; Arlindo Cruz, em Não Dá; Décio Carvalho, em Estava Faltando Você; Nelson Rufino, em Minha Trajetória; Roque Ferreira, em Ingrata Surpresa; e Vitor Pessoa, em Nos Braços do Amanhecer. Com poetas desse calibre e melodias venenosas, Das Neves fez o que parecia difícil: um disco ainda melhor do que seus anteriores.

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