Faz um rap aí, delegado

Ah, se Mano Brown visse isso... Doutor Cloves, homem da lei de Igarapava, no interior de SP, cansou de ouvir falar de roubalheira em Brasília. Passou a mão em uma caneta e começou a escrever letras ''bombásticas''

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Nenhum dos 35 mil cidadãos da cidade de Igarapava, no interior de São Paulo, tem coragem de olhar nos olhos do delegado Cloves e chamá-lo de Amado Batista. Não que falte vontade, já que ali é mesmo o caso de sobrancelhas tristes de um e nariz gordinho do outro. Cloves, à primeira vista, é um homem da lei durão. Se quiser tirar dele um sorriso nos dias em que não estiver desbaratando uma quadrilha de traficantes ou estourando um cativeiro, é melhor dançar conforme outra música. Cloves Rodrigues de Souza, 48 anos, casado, um filho, é autor de letras de rap. A trilha que os manos adotaram para desancar os policiais, entre seus inúmeros desafetos, é o que sai da cabeça desse policial com 16 anos de carreira. E seu sucesso sob a alcunha de "delegado rapper" já foi percebido até pela bandidagem igarapavense.

Igarapava toda sabe quem é o delegado Cloves. Para conhecer seu paradeiro, basta ligar no telefone da prefeitura. Foi há quase dois anos que esse garoto de Ipanema, cidade do interior de Minas Gerais que nunca inspirou Tom Jobim, resolveu desabafar suas angústias em uma letra chamada Laços Eternos, com rimas que só não são esquecíveis por terem saído de quem saiu. "Tá chegando os "home"/ Aqui todo mundo é suspeito / Com ou sem sobrenome / Não existe respeito / Se correr o bicho pega / Se ficar o bicho come." A estrela do xerife brilhou rápido. Encorajado por um amigo, gravou o rap em um estúdio de fundo de quintal em sua cidade e o CD foi parar na programação da Rádio Show AM de Igarapava. O Rap do Delegado, como passou a ser chamado, virou sensação. Até os 40 presos da cadeia cuidada pelo "delega" se empolgaram. Era ele descer aos porões da carceragem para ouvir um detento cantando os versos em sua homenagem. "Eu gostava e via que eles também gostavam". A emissora da cidade passou a receber entre 180 e 200 ligações por dia pedindo mais. Um executivo de São Paulo foi a Igarapava para contratar Cloves. Queria porque queria que ele lançasse um CD, virasse um astro pop. "Mas não, não era a minha intenção", diz Cloves.

Sem nome aos bois. A cabeça de Cloves não para, mesmo depois do estrelato relâmpago que viveu em sua cidade. O delegado está hoje ainda mais cortante, inspirado tanto pelo próprio holerite irreajustável "há anos", como diz, quanto pelas páginas policiais dos jornais. Sem citar nomes, suas novas letras têm como tema escândalos políticos protagonizados por peixes grandes que qualquer um que acompanha os noticiários saberá de quem se trata.

Farra no Reinado é um de seus raps mais ferozes: "Como água no deserto / honestidade é miragem / o bando ficou esperto / para melhorar a imagem / o golpe foi descoberto / como a farra da passagem." Uma referência direta ao episódio dos políticos que usaram recursos públicos para viajarem com família e amigos. A letra segue: "Que reino é esse / que parece fantasia / o representante quando eleito / serve quem o financia / mas quando é desmascarado / antes de ser cassado / simplesmente renuncia." Na mira aqui, o peito de um certo ex-governador de Brasília. E mais: "Que reino é esse / que é cheio de malícia / o homem forte do reinado / vira caso de polícia / mas só cai mesmo / por pensão alimentícia." E dá-lhe flashback com imagens de Renan Calheiros, presidente do Senado entre 2005 e 2007, quando renunciou após denúncias de corrupção, e Mônica Veloso, mãe de uma filha sua fora do casamento.

Como um Mano Brown da lei, o delegado tem uma língua que não sossega. Ele só quer justiça. Papai eu Quero, paródia para Mamãe eu Quero, é jogada como uma granada de efeito moral disfarçada em cantiga de ninar. E que lembra outro político do rico cenário nacional: "Calma filhinha / Não pede isso não / Porque o vovô é o alvo da investigação / Corre papai e pede logo pro vovô / Que eu quero aquele emprego pra agradar ao meu amor / Cuidado filhinha / Que a coisa vai mudar / A vaca foi pro brejo / Não vai dar mais pra mamar..."

Cloves vai à história do Brasil para desenvolver sua teoria sobre polícia e bandido, que ainda não virou música. Os dois, para ele, repetem os anos em que capataz e escravo eram figuras comuns. "Eles eram da mesma origem. Mas o capataz ganhava a confiança dos senhores de engenho para vigiarem os escravos que fugiam ou cometiam delitos." O problema, para Cloves, não está em capatazes nem em escravos, mas nos tais senhores de engenho. "Continuamos nas mãos deles." Mas quem são eles? Bem, é melhor parar por aqui, antes que Cloves, um simpático delegado, perca seu emprego.

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