Valéria Gonçalvez / Estadão – 9/12/2009
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Leandro Karnal
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Faz pouco tempo

Para os netos, uma barbárie: discos comprados em lojas, sem internet e sem delivery de comida

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 03h00

“Faz pouco tempo, parece que foi ontem”, diz o avô aos netos adolescentes. 

Os três jovens sabiam que essa frase introduzia uma chuva de memórias e que deveriam ouvi-las porque amavam o avô e porque os pais estavam por perto para garantir a fidelidade às raízes. Com a supervisão do olhar paterno e materno e um pouco de impulso afetivo, eles chegam mais perto do velho senhor. 

- Como era?

- Ah, meninos, era outra época. A gente não fazia exames com cotonetes nas narinas e ninguém usava máscara. 

Os netos se entreolharam. Seria o início da senilidade quando a memória fica mais liberta dos fatos reais? Voltaram a entreolhar-se de forma cúmplice e continuaram dispostos a ouvir o pai do pai.

- Vou um pouco mais para trás. Não existiam celulares e fazíamos poucas fotos. As pessoas conversavam umas com as outras sempre que saíam.

Agora sim: os netos tinham certeza de que a saúde mental do patriarca estava em declínio absoluto. Como sair sem celular? Como não fotografar tudo? Sobre o que poderiam conversar as pessoas se não tivessem redes sociais? Duvidaram, ainda mais, da lucidez do avô, especialmente no exato momento em que o olhar do pai ficou mais vigilante do outro lado da sala. 

O senhor de cabelos brancos falou daquele quase paleolítico inferior. Descreveu um mundo de barbárie absoluta com discos comprados em lojas, sem internet e, como único sistema de delivery de comida, um padeiro e um leiteiro que deixavam as coisas em casa pela manhã. O mais novo perguntou: 

- Mas... pedia pelo aplicativo, vô? 

O senhor não respondeu à pergunta. Estava imerso naquela melancolia que colabora para tornar o passado brilhante à medida que dele nos distanciamos. Falou de cartas escritas a mão, envelopes com selos, ligações interurbanas caríssimas para a Europa, uma televisão por família, carros que duravam muitos anos em cada casa, eletrodomésticos que eram dados de presente no dia do casamento e eram trocados, por vezes, nas bodas de prata. 

- Eram de adamantium? perguntou o mais novo, brincando com a figura da personagem Wolverine, com garras indestrutíveis daquele metal. Não, o avô não acompanha os X-Men e apenas louvava um mundo sem a obsolescência do atual. 

- A gente consertava as coisas: sapatos, batedeiras, casamentos... Não se jogava fora ao primeiro sinal de fadiga de material. 

Consertar um calçado era algo muito estranho aos três netos. Quando o tênis rasgava, era o momento de trocá-lo, ou até antes. Chocavam-se dois modelos de capitalismo entre as gerações ali em debate. Todavia a narrativa estranha daquele mundo muito antigo, quase uma Idade das Trevas tecnológica, seduzia um pouco eles. 

- Entre 1970 e 1986, eu e sua avó tivemos o mesmo aparelho de telefone fixo; depois, ela inventou de comprar um modelo novo e começou a trocar.

Dezesseis anos com um aparelho? Júlia nunca tinha conseguido ter um por muito tempo. Surgiam modelos, quebrava a tela, havia uma fonte nova que não se encaixava nas coisas do verão passado. Dezesseis anos eram dois a mais do que toda a vida dela. Como se ela tivesse recebido um celular ao nascer e, incrível, ainda o usasse! A menina estava realmente espantada que sua família tivesse sobrevivido a um mundo assim!

A narrativa ainda descreveu uma escola de presença diária, sem aulas virtuais. “Todos os dias”, a expressão parecia inacreditável. Como alguém aguentava? De fato, nenhum dos netos conseguia supor aquela época contemporânea das pirâmides do Egito. Era concebível? Alguém seria feliz? Era possível existir? Não havia suicídios em massa? As pessoas, desesperadas, não se atiravam das pontes pelo vazio da sociedade sem smartphones?

Já fazia trinta minutos que o senhor descrevia, com alguma idealização, o passado. Eram dois mundos incomunicáveis. Quando se lê a expressão “pérolas para os porcos”, existe um julgamento moral e uma incompreensão. O julgamento moral dos porcos é injusto: por que os suínos deveriam dar valor a uma substância retirada de uma concha e sem valor alimentício? Os animais da vara não são estúpidos, os humanos talvez sejam. Porém, se as pérolas possuem alguma consciência, também não valorizariam os porcos. Ambos se ignoram e animais e esferas marinhas não conseguem entender a utilidade ou o valor alheio. Sim, o avô falava e o efeito era similar. Onde estaria o valor: na pérola contemporânea ou no porco de antanho?

O horário do almoço se aproximava e os pais entraram na sala para dar liberdade provisória aos netos. O velho senhor encerrou a história com a revelação final: não havia tomadas ao lado da cama na infância dele. Por vezes, uma única, ocupada pelo abajur. “Sem tomadas ao lado da cama?” Agora, a narrativa tinha se tornado mítica em excesso. Eram perólas-wireless em excesso e porcos se atropelando. Os três almoçaram felizes por terem se livrado de nascer em época tão atrasada. 

- Faz pouco tempo!, exclamou o avô, balançando a cabeça com saudade. 

O prato de domingo era um leitão assado, pedido pelo celular do pai. O animal parecia concordar: “Faz pouco tempo...”.  

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR,ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

 

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