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Faxina e desigualdade

A terceirização é a realidade produzida pela tecnologia e pela globalização

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2017 | 03h00

Hoje é Dia do Trabalho nos EUA. É também o feriado que marca o fim das férias de verão, a volta à escola e a volta do Congresso em Washington à atividade para a qual não foi eleito: pouco legislar e defender seu pirão primeiro.

Um perfil de duas profissionais separadas por mais três décadas foi publicado pelo New York Times no fim de semana prolongado em que os americanos, empregados ou não, supostamente refletem sobre o trabalhador. A história das duas é a história do crescimento da desigualdade, um fenômeno que desestabiliza o mundo muito mais do que o terrorismo. A desigualdade elegeu o atual presidente americano, produziu o Brexit e pode definir a escolha do próximo presidente do Brasil. Resumo aqui a reportagem de Neil Irwin sobre as duas faxineiras de duas corporações históricas por seu papel pela inovação tecnológica.

Gail Evans limpava os escritórios na sede da Kodak em Rochester, no norte do estado de Nova York, no começo dos anos 1980. Marta Ramos faz limpeza na sede da Apple em Cupertino, Califórnia. Descontada a inflação de 35 anos, o salário das duas é quase o mesmo: US$ 16,60 por hora.

Gail era empregada em tempo integral, com um mês de férias remuneradas e auxílio-educação para cursar faculdade no tempo que lhe sobrava. Marta trabalha para a agência de limpeza contratada pela Apple e não tira férias há seis anos porque não pode ficar sem receber. Estudar para deixar de ser faxineira, nem pensar. 

Quando a Kodak fechou a divisão onde Gayle trabalhava, ela foi treinada para editar filme. Quando um gerente soube que ela tomava aula de computação à noite, lhe deu outras funções e, em uma década, Gayle chegou a diretora de tecnologia da Kodak. As chances de mobilidade que Marta vislumbrou para o repórter do Times? Ganhar US$ 17,10 por hora como monitora de outros faxineiros.

Como argumenta o porta-voz da Apple consultado pelo Times, a empresa gera 2 milhões de empregos nos EUA, além das 47 mil pessoas que emprega diretamente. A Kodak, ferida pela revolução digital, entrou em falência em 2012 e, depois de anos enxugando suas operações, hoje emprega menos de 9 mil pessoas nos EUA e em outros países. Em 1988, chegou a empregar 145 mil.

A falta de mobilidade social de Marta não vai ser solucionada se a Apple contratar milhares de faxineiros com benefícios, algo que o CEO Tim Cook não faria porque não pretende cometer suicídio de carreira nem baixar o valor das ações da empresa. A terceirização é a realidade produzida pela tecnologia e pela globalização. Mas isto não significa que se deve ignorar o risco da desigualdade crescente.

Tanto nos EUA como no Brasil, um clichê favorito de políticos e do comentariado é gritar “guerra de classes!” quando se tenta levar a desigualdade a sério. Tanto nos EUA, com o governo promovendo mais cortes de impostos que vão beneficiar uma ínfima minoria no topo, como no Brasil, no esforço de legislar num ambiente que não estimula emprego, os demagogos preferem reduzir o debate a ideologia. Quando economistas agraciados com um Nobel dizem que o acirramento da desigualdade é uma força destruidora do capitalismo, são tachados de esquerdinhas.

Na semana passada, nossa ex-presidente, cujos pronunciamentos sempre me tornam insegura sobre meu domínio do português, voltou a atacar o que chama de interesses capitalistas que a derrubaram. Seu padrinho faz o mesmo em campanha para presidente. Ambos impuseram sua forma de capitalismo no Brasil. É o capitalismo de compadre, exposto em toda sua pestilência pelas delações da Lava Jato. É o mesmo capitalismo que, somado à privatização desordenada do ensino martirizando hoje a classe média, define o futuro da faxineira da Apple.

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