Fawzia Koofi relata drama para ser a presidente do Afeganistão

Fawzia Koofi relata drama para ser a presidente do Afeganistão

Na autobiografia 'A Filha Favorita', sua história de vida confude-se com a do próprio país

Marilia Kodic - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2013 | 19h29

Ministério do Amor: responsável pela espionagem e controle da população. Ministério do Vício e da Virtude: responsável por evitar crimes contra a moralidade. Embora soem parecidos, os gabinetes têm uma diferença crucial: o primeiro faz parte de 1984, clássico literário de George Orwell, e nunca existiu fora da ficção. Já o segundo não só existiu no Afeganistão como, segundo Fawzia Koofi, 38, achava que seu principal ofício era espancar mulheres na rua. “Foram os anos mais fúnebres do país”, diz Fawzia, em entrevista exclusiva ao Estado.

Cinco anos antes de colocar setembro de 2001 nos livros de história, o Taleban já instaurava terror no comando de um Afeganistão ainda frágil pós-guerra civil e invasão soviética. Sob o alegado dogma religioso, saqueou museus, queimou bibliotecas, destruiu escolas e universidades e moldou à força o povo afegão aos seus valores, algemados à Idade Média.

Para as mulheres, era ainda pior. Proibidas de sair às ruas sem burca, falar com homens com quem não tinham relação de sangue, estudar ou trabalhar; casadas à força, vítimas de violência física, indignas de tratamento médico profissional e passíveis de punição após serem estupradas por alegadamente terem “traído” os maridos; formavam a escória de uma sociedade misógina.

De volta a 2013, ainda há generosos resquícios dessa sociedade. “Essa semana mesmo, eu recebi uma carta dizendo para tomar cuidado com a minha segurança pois um grupo Taleban queria me matar”, diz Fawzia. Mas não se esquiva: “São ameaças terríveis, mas se tornam pequenas se comparadas ao objetivo maior que se pode ter na vida”. O objetivo, no caso, é a presidência do Afeganistão.

Narrada na autobiografia A Filha Favorita (Objetiva), a vida de Fawzia se confunde à história social e política do Afeganistão. Filha de uma das sete esposas de seu pai, deixada ao sol para morrer após o nascimento simplesmente por ter nascido mulher, vivenciou anos lúgubres até chegar à Vice-Presidência do Parlamento em 2005, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo.

“Minha família pagou um alto preço por estar na política (o pai e o irmão foram assassinados pelo regime totalitário e o marido, após sofrer várias prisões, contraiu tuberculose e morreu), e às vezes sinto que tudo isso não vale a pena porque requer muitos sacrifícios”, disse ela.

Fawzia Koofi fala de Dilma e do futuro que quer para o Afeganistão

Ao fazer um balanço de sua vida política, Fawzia Koofi, que lança a autobiografia A Filha Favorita, afirma: “Se eu quisesse simplesmente aproveitar a vida com a minha família, teria sido melhor deixar o Afeganistão, como muitos fizeram. Mas, nos momentos em que vejo a enorme necessidade de uma mudança para o meu povo, tenho a determinação e a esperança para ir em frente”.

Apesar do discurso otimista, está apreensiva pelo país, particularmente com a retirada das tropas americanas prevista para 2014. “Somos uma nação de luta pela liberdade que não quer se ver ocupada, e as tropas cometeram muitos erros, como matar cidadãos inocentes. Mas não as vejo como uma força de ocupação, e sim como um parceiro que veio nos ajudar a nos restabelecer”, diz, alegando estar preocupada com o fato de que, com a retirada, haja uma deterioração na segurança, no quadro econômico e na situação das mulheres. Acima de tudo, teme que o país seja esquecido pelo Ocidente.

“Sei que os EUA já têm seus próprios problemas, mas acho que o presidente Obama precisa revisar sua estratégia em relação à retirada das tropas. Sei também que muitos países não querem olhar para nós, pois não são parceiros estratégicos ou vizinhos. Mas o Afeganistão não é um produtor de terrorismo. Somos uma nação vítima. Espero que não sejamos esquecidos.”

Apesar da visão negativa que o Ocidente tem de seu povo, Fawzia o defende como um dos mais fortes e esperançosos do mundo. “Se qualquer sociedade tivesse passado por tantos e tão grandes conflitos, tenho certeza de que teria sido abolida”, afirma, atribuindo a força do povo à fé e aos valores que cultivam, e completa, com um tímido riso: “O que falta é essa primeira geração de políticos não ter mais energia pra se envolver em política”.

Regido durante décadas como o feudo pessoal de cada homem poderoso – em sistemas tão diversos quanto monarquia, república e ditadura –, o Afeganistão teve suas primeiras eleições democráticas em 2004. “Fomos governados pelos mesmos políticos por décadas. Acho que a nova geração representa ventos de mudança.”

Admiradora da presidente Dilma – “tenho imenso respeito por ela e congratulo o Brasil por tê-la escolhido”, afirma acreditar que uma mulher ocupar o posto de presidente é um desafio, mas não um que não possa alcançar. “Perguntam se tenho chances de ganhar. Todo mundo concorre para ganhar. A resposta à minha campanha tem sido muito positiva e sou muito grata ao meu povo por isso. O Afeganistão está se transformando, de uma sociedade que esteve fechada ao mundo, em um país pronto a aceitar a liberdade, e o crédito vai para as pessoas.”

Quanto ao futuro que pretende talhar para seu povo, caso ganhe, resume: “Gostaria de ver um Afeganistão que não dependa economicamente de ajuda internacional, mas viva com os recursos naturais que tem, e que consiga se tornar um parceiro para a comunidade internacional e não ser só aquele que recebe ajuda. Acima de tudo, gostaria de ver um Afeganistão socialmente igualitário, independente de cor, crença religiosa ou sexo”.

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