Fauzi Arap foi um líder natural, um grande formador de artistas

Colaborador do 'Caderno 2' escereve sobre o ator, diretor e dramaturgo

Jefferson Del Rios - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2013 | 21h05

Fauzi Arap, em cena, tinha um belíssimo jogo de mãos, um ritmo de fala com subentendidos e olhares que enriqueciam o fluxo emocional do texto. Quebrava as frases como se fosse quase gaguejar, emocionado. Quem não deve algo a ele?. Devo-lhe arte e amizade desde bem antes ser crítico teatral. Vi-o, pela primeira vez, em O Inspetor Geral, de Nicolai Gogol, no Teatro de Arena (1963). A seguir, em substituição a Raul Cortez, como o poeta cético Teteriev, de Pequenos Burgueses, no Teatro Oficina (1964). Se a memória não vacila sob o impacto da sua morte, creio que ele estava em O Fardão, de Bráulio Pedroso, brilhante jornalista do Estado, que aderiu ao teatro e à TV, na qual se consagrou com a telenovela Beto Rockefeller, na antiga TV Tupi.

Fauzi, a seguir, ajudou a avalizar o talento de Plínio Marcos como diretor e ator de Dois Perdidos na Noite Suja. Com a direção de Navalha na Carne, no Rio, impôs Tônia Carrero como atriz dramática de peso para além da beleza. A seguir, em São Paulo, criou a explosiva versão (é o termo) de O Assalto, de José Vicente de Paula, com Paulo Cesar Pereio e Francisco Cuoco, metáfora agressiva – com alusões sexuais – sobre o “milagre econômico” da ditadura (1969/70).

Depois, em surpreendente guinada, Fauzi tornou-se exclusivamente diretor e dramaturgo. Poliu a persona dramática de Maria Bethânia no já histórico musical Rosa dos Ventos (1971) e começou a escrever obras na contracorrente da temática política em voga e que lançavam em cena questões existenciais e do oficio teatral (Pano de Boca, O Amor do Não, Um Ponto de Luz, Mocinhos Bandidos, entre outras). Tornou-se uma referência para todos os colegas, sobretudo os mais jovens. Recatado, mas muito veemente quando queria, aparecia pouco (sempre com um punhado pistache no bolso). Sabia desmontar a obviedade dramática, o discurso panfletário. À sua maneira, foi o filósofo que se explica no livro Mare Nostrum – Sonhos, Viagens e Outros Caminhos (Editora Senac, 1998).

Este engenheiro civil formado pela Escola Politécnica caminhou em direção às abstrações de sua amiga Clarice Lispector, de quem encenou uma adaptação de Perto do Coração Selvagem. O teatro, para ele, sempre foi um processo de autodescoberta (o que talvez o aproxime de Jerzy Grotowski), embora, ao contrario do teórico e diretor polonês, tenha trabalhado mais com o realismo. Foi um líder natural, um formador de artistas, um homem contrário aos sectarismos. Cultivou a solidão em família e trabalhava sem prazos. Ele tinha todo o tempo segundo sua ideia de tempo. Ficará como um dos grandes do teatro brasileiro contemporâneo.

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