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Fauna diferenciada

Hoje vi no parque um cachorro diferenciado.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2015 | 02h05

Se você vive em São Paulo, sabe o que quero dizer com esse adjetivo. Provavelmente se lembra do bafafá armado em Higienópolis, algum tempo atrás, quando se anunciou a construção, ali, de uma estação do metrô. Uns tantos moradores reagiram mal - entre eles, uma psicóloga que anteviu trens a despejar no bairro, refinado e tranquilo, hordas de gente "diferenciada". Na outra ponta, o insight infeliz revoltou um povaréu não necessariamente diferenciado, num protesto que incluiu a instalação de fumarenta grelha de churrasquinho, como em laje de barraco, bem em frente ao shopping. Uma festa. Lembro de um cartaz em que se pedia o banimento de carros diferenciados, quer dizer, 1.0. Resfriada a grelha, no entanto, o que aconteceu? A estação em projeto foi empurrada para ponto menos sensível de Higienópolis.

Todo esse flashback para dizer que fiquei a imaginar a reação da psicóloga caso topasse, como eu nesta manhã, com um vira-lata nas aleias do parque da praça Buenos Aires.

De nome Pepa, a serelepe criatura, com pelagem branca e preta (fosse de raça e se imporia o adjetivo "negra"), era levada pela coleira por dois rapazes aparentemente de família. Indiferente aos patamares da escala canino-social, a semostradora Pepa a cada passo confraternizava com semelhantes de boa linhagem, por certo consumidores da melhor ração e, quando os donos viajam, frequentadores de canis-hotéis 5 estrelas.

Com o pretexto da caminhada habitual, fui seguindo a saltitante Pepa, e posso atestar que, embora plebeia, ou por isso mesmo, ela foi atração na manhã do parque, naquele momento em que há por ali tantas babás de cães quanto de crianças. Quais crias fazem mais sucesso? Páreo duro.

- Que gracinha! - interessou-se a portadora de um buldogue francês, ser roliço de focinho achatado que me lembra uma Kombi. - Menino ou menina?

- Menina - informou um dos passeadores de Pepa, retribuindo o interesse da interlocutora com elogios à ronronante Kombi. O papo rendeu, e em pouco se formou uma roda de bípedes e quadrúpedes. Entre os primeiros, observei, eu era o único sem-cão. Nesse sentido ao menos, um diferenciado. Nenhum caso de canil ou de veterinário a relatar - a não ser que recorresse ao obeso anedotário de meu irmão Flávio, de quem já falei e que, para não ficar por baixo, eu poderia apresentar como um dos mais reputados handlers que já teve a cinofilia não apenas nacional.

Poderia lançar mão do folclore acumulado pelo mano e contar, por exemplo, o caso do cão monoglota que ele teve nos primórdios da carreira, o Aníbal, que, nascido e criado na Argentina, só atendia a chamamento e ordens em espanhol. Sou testemunha visual e auditiva: não adiantava você usar pronúncia brasileira, "Aníbau", pois o forasteiro só abanava o rabo se o chamassem de "Aníballl", esticando hispanicamente o L e espetando a língua no céu da boca. Munição não me faltava, pois, mas fiquei em silêncio - com o risco de que minha mudez suscitasse curiosidade como a que xeretei outro dia nas mesas da padoca:

- E o senhor, não tem ninguém? Nem um cachorrinho?

Nem um cachorrinho - e eis que começa a me pesar a solteirice zoológica de que falei na semana passada. Um desconforto, ao menos, pois a alguns dos que me leram posso ter passado a impressão de que, sendo um sem-cão, seria um anti-cão. E olha que nem invoquei o Sartre quando ele diz que "quem ama demasiadamente os animais, ama contra os homens". Deixei má impressão. O Sérgio Augusto, por exemplo, tuitou que ando precisando de um cachorro. Eu não mereço, Sérgio! Mas, se tiver que ser, que seja como Pepa, a diferenciada.

Mais tarde o Felipe me socorreu com a consoladora informação de que tenho um xará ilustre, o cão de Santo Humberto, ou bloodhound. Tanto quanto eu, que nunca fui santo, ele não chega a operar milagres, mas tem virtudes que, ao lado da modéstia, também julgo possuir, como (leio aqui no Google) um "faro de excepcional apuro", "bela e estranha voz", "inteligência, perseverança e coragem", para não falar no "ar melancólico e pensativo". (Por favor, não dê crédito à foto no alto desta coluna.) Um famoso cão de Santo Humberto? O Pluto, de Walt Disney. Não, não fico ofendido, como ficaria o personagem se lhe caísse do nome uma consoante. Poderia ser pior - poderia ser o Pateta.

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