Faulkner passou por Hollywood

A certa altura da vida, WilliamFaulkner saiu do Sul natal e dirigiu-se para a Califórnia, ondefoi ser roteirista de Hollywood. Era mais ou menos um destinocomum de escritores porque a fama estava lá, e o dinheirotambém. Cumpriram esse rito de passagem outros nomes como F.Scott Fitzgerald e Dashiel Hammett. Como artistas, os dois poucose pareciam com Faulkner, exceto pelo fato de serem todosbebedores respeitáveis e compulsivos. Faulkner era um sulista convicto, do tipo que talvez nãose encontre mais. Sua cosmovisão era herdeira da derrota naGuerra de Secessão. Via o mundo como aristocrata rural econsiderava vulgar o materialismo anômico que vencera a guerracivil e se impusera como modus dominante americano. Fiel a umavisão de mundo sólida e antiquada, escondeu durante muito tempoo fato de ser um escritor. No íntimo considerava a atividadeindigna de sua estirpe e classe, que deveria passar o tempo acaçar, jogar - e beber, claro. No entanto, Faulkner não gastou a vida dedicando-se aocinema e ao bourbon. Em Hollywood passou quatro anos e fugiu atempo, quando viu que aquele trem de vida iria acabar com elebem depressa. Não foi uma estada inútil. Deixou roteiros dealguns filmes significativos, como Uma Aventura na Martinica Terra de Faraós, À Beira do Abismo. Colaborou em outrosscripts, não assinados, para filmes de John Ford, George Stevens Raoul Walsh, Michael Curtiz e Jean Renoir, em sua faseamericana. Enfim, Hollywood não fez bem a ele, como não fez aFitzgerald e a Hammett. Varia de pessoa para pessoa: Gore Vidalpassou incólume, até onde se sabe. Mas o fato é que a passagem de Faulkner por Hollywoodfoi traumática. Ela está descrita, de forma ficcional, no belofilme dos irmãos Coen, Barton Fink - Delírios de Hollywood,que virou cult depois de ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Nele,Faulkner aparece sob nome fictício, W.P. Mayhew, interpretadopor John Mahoney. O personagem é um bêbado tão decadente quedeixa o trabalho ser feito por sua secretária enquanto seempenha em digerir um Mississippi de uísque. Não corresponde àverdade. Mal ou bem, bêbado ou sóbrio, era Faulkner quem sesentava à máquina e escrevia. Pelo menos é o que se sabe e fazsentido acreditar nisso. Afinal, por ingrato que fosse aquele trabalho era sempreresponsabilidade de alguém que pertencia, de direito, ao mundodas letras. E como. Ganhador do Pulitzer e do Nobel, Faulknerfoi um inovador. Muito além do lugar-comum que o define como"voz do Sul" (o que é verdade), ele foi o inventor de umalinguagem. Criou um lugar imaginário onde as coisas aconteciampara que ele as relatasse. O condado de Yoknapatawpha, com seusrios, vales e vilas era esse palco. Um microcosmo no qual oleitor é convidado a entrar, habituar-se e conviver com ospersonagens e cenários. Estilisticamente, Faulkner (aliás William CuthbertFalkner, sem o "u", que acrescentou depois), nada tinha a vercom os roteiros desejados por Hollywood. Nota: Hollywood,naquele tempo, anos 30 e 40, não era essa droga previsível dehoje. Naquele tempo se ousava, se criava e tentava-se conciliarsucesso comercial com arte. Isso acabou quando a direção dosestúdios passou para as mãos dos financistas. Mesmo assim, umroteiro, por brilhante que seja, não passa de embrião do filme.Ele se realiza e, de certa forma, é negado, no ato da filmagem edepois na montagem. A literatura é outra coisa, autônoma, e Faulkner,naquele condado de Yoknapatawpha, operava milagres. Seu livromais famoso, O Som e a Fúria, é um caleidoscópio inventivo,que narra uma história de quatro pontos de vista distintos.Certo, pode-se dizer que Faulkner, como qualquer outro, não veiodo nada. Há nele ecos de Joyce, Eliot e Sherwood Anderson.Talvez mesmo de Edouard Dujardin, "inventor" do fluxo deconsciência na narrativa, antes de Joyce. Mas nota-se nele algo único, a reinvenção do Sulprofundo em prosa universal. Em comentário agudo, Gabriel GarcíaMárquez afirmou que Faulkner não era um autor norte-americano -e sim caribenho. Pensava naquela mistura de raças e ritmos, nosangue negro, na luxúria e na intolerância como germes criadorese pecados originais de uma nação. Gabo, que também criou umacidade imaginária, Macondo, para falar de sua Colômbia real,soube reconhecer sua família literária.

Agencia Estado,

24 de janeiro de 2003 | 17h17

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