Faulkner mostra miséria do sul dos EUA

O romance Enquanto Agonizo começa a ser interessante pela sua "biografia". Em 1930, o escritor, que estava de ressaca, dessa vez literária, após a primeira versão de Santuário, e sem dinheiro, trabalhava como foguista numa usina elétrica. Nos intervalos escreveu o livro do qual Wladir Dupont faria a segunda versão para o português, 70 anos depois. É um livro ágil, temperado com cenas bem-humoradas, lances poéticos, mas que, sobretudo, coloca o leitor dentro da miséria do sul dos Estados Unidos pelos olhos de uma família de brancos pobres. Dupont segue o ritmo faulkneriano em bom português, mas lembrando na entrelinha que se trata de um livro importado, conforme propunha Benjamin.A técnica empregada pelo autor lembra a de O Som e a Fúria, com monólogos que vão se entrelaçando no espaço imaginário da narrativa, isto é, na mente de quem lê, apenas. A história é grotesca: a matriarca está morrendo e pede ao filho preferido, Cash, marceneiro, que já prepare o caixão. As marteladas de Cash ressoam pelas páginas do livro, dão o tom exasperante, entrecortado pelas falas de cada personagem. O pior é levar a morta para a cidade, onde será enterrada. O cortejo cresce no trajeto: as aves de rapina percebem o corpo em putrefação. A festa continua na cidade, onde cada um dos familiares tem o que fazer. Mas não vale a pena contar o resto, embora não se trate de um livro policial, pois a surpresa de uma primeira leitura é insubstituível.Há quem considere que Faulkner superou o grande mestre James Joyce na inventividade romanesca. Pode ser verdade, até pelo fato de que o norte-americano era realmente um romancista, um narrador visceral, enquanto o irlandês, como observou Jorge Luis Borges, era antes de mais nada poeta - basta ler um parágrafo de Retrato do Artista Quando Jovem ou Ulisses para verificar como isso é verdadeiro. Agora, o poder inovador de Faulkner ficará comprovado durante a leitura de Enquanto Agonizo pelo simples fato de que é melhor, mais fascinante do que centenas de romances escritos depois, como eco e reflexo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.