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Sai no Brasil 'Músicas e Musas', um dicionário de casos sobre artistas e suas inspirações

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2012 | 03h00

Durante um show dos Rolling Stones, em 1963, a beldade ao lado, Chrissie Shrimpton, se pendurou de uma rede de pesca que decorava o teto da boate. Balançou Tarzan (ou Jane) por cima da plateia, fez um crowdsurfing até o palco (quiçá o primeiro registro da modalidade) e tascou um beijo em Mick Jagger, que ficou mais alucinado que o lobo mau de Tex Avery, no clássico A Ardente Chapeuzinho Vermelho, de 1943. Em menos de um mês já havia pedido a garota em casamento, apresentado aos pais e dado início a um conturbado relacionamento que azedaria em menos de dois anos, revelando a face possesiva de sua personalidade.

Mas Chrissie seria apenas uma nota de rodapé no universo de histórias libertinas dos Stones não fosse o sumo lírico que seu conturbado romance espremeu do cantor. Em 1965, depois de um surto controlador, Mick escreveu o clássico Under My Thumb, sobre uma garota que o atordoava, mas que o cantor havia conseguido domar, colocar debaixo de seu dedão, transformar, em menos de duas estrofes, de cão feroz em bicho de estimação.

Essa e outras rimas são o foco de Músicas e Musas, livro de Michael Heatley e Frank Hopkinson, que ganha agora versão brasileira pela editora Gutenberg. Trata-se de um trabalho compacto, que reúne histórias sobre a inspiração feminina no rock em 50 capítulos que podem ser lidos de forma aleatória. A impressão mais curiosa deixada pelos verbetes do livro é a pluralidade do estrago (cauterizado em melodias) que as musas mais famosas causaram. Under My Thumb, por exemplo, não foi a única rima desencadeada por Chrissie. Mick escreveu Let's Spend the Night Together ao trocá-la por Marianne Faithfull, e mais tarde, com desprezo pela ex, compôs Yesterday's Papers ("Quem quer os jornais de ontem? Quem quer a garota de ontem?"). A modelo também emaranhou-se com Steve Marriot, do Small Faces, que compôs Talk to You, sobre o término do relacionamento.

Há casos para todos os gostos em Músicas e Musas, de Guns n' Roses a Bob Dylan, Coldplay a Leonard Cohen, sem deixar de fora a Helô de Ipanema. Embora não gastem mais que uma página em cada análise, Heatley e Hopkinson conseguem compilar um minidicionário de curiosidades sobre o processo criativo de grandes artistas, junto a lendárias fofocas.

Logicamente, não deixaram de fora aquele mais fértil de todos os casos da história do rock, entre George Harrison, Pattie Boyd e Eric Clapton. Além de inspirar dois dos clássicos de cada compositor (Something, de Harrison, e Layla, de Clapton), o triângulo amoroso diz muito sobre a persona dos dois. George aproximou-se de Eric no fim dos anos 60, quando Pattie e o Beatle já eram um casal, e Something já havia sido criada, em um rotineiro dia, na cozinha do casal. Os três moraram no mesmo bairro inglês no início dos anos 70. E depois de alguns encontros secretos, enquanto George se concentrava em sua carreira solo, Clapton logo apresentou a Pattie uma canção baseada na história Layla e Majnun, do poeta persa Nizami Ganjavi, que fala sobre o romance entre um homem e uma mulher que está comprometida. Mas o interessante estava por vir: Clapton confessou a George que estava apaixonado por sua mulher, foi repudiado, e sucumbiu a um vício em heroína. Enquanto isso, George dormia com as mulheres de Ronnie Wood, dos Stones, e de Ringo Starr. O divórcio logo veio e Clapton foi atrás de Pattie, casou-se e acabou parindo Wonderful Tonight, outra bela criança, em sua homenagem. Pouco tempo depois, os três passaram o Natal juntos.

O Fleetwood Mac, grupo digno de dissertações sobre a dinâmica entre seus componentes, emplaca somente uma, Sara, do magistral álbum Tusk (superior a Rumours, argumentam alguns). A canção é fruto do ciúme de Stevie Nicks que se envolvera com Mick Fleetwood, mas teve de dividi-lo com Sara Recor, um flerte da época.

No entanto, as curiosidades de Músicas e Musas também vão além de doloridas teias e triângulos amorosos. É curioso que a maioria dessas histórias mais corriqueiras, desprendidas de paixão e sofrimento, sejam de autoria de Lennon e McCartney. Foi Lennon, por exemplo, quem escreveu a delicada Prudence a Prudence Farrow, irmã de Mia, que se recusava a sair do quarto, quando as Farrows e os Beatles se hospedaram no retiro do guru Maharishi, durante a conhecida viagem à Índia. Paul, por sua vez, escreve Lovely Rita inspirado em uma guarda de trânsito que o multou. Juntos, tiveram a ideia, tirada manchete do jornal Daily Mirror, de compor uma canção para uma menina que fugira de casa, história que ficou eternizada em She's Leaving Home, do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

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