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Luis Fernando Verissimo
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'Fast' e 'Slow'

O ataque dos McDonald’s não era apenas salivar, também atingia os hábitos de toda uma geração e o sonho de serem modernos – ou americanos por tabela

Verissimo, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 02h00

O mundo dá muitas voltas. Podem me citar. Há alguns anos, a chegada do primeiro McDonald’s à Europa foi um acontecimento cheio de significados, além da simples introdução do hambúrguer aos europeus. A proliferação de McDonald’s simbolizaria um triunfo, ou pelo menos uma importante vitória, do processo de americanização do mundo. E o mundo estava louco por se americanizar. Nós passeávamos pelo centro de Budapeste quando uma aglomeração de gente, tentando inutilmente se transformar numa fila, chamou nossa atenção: inaugurava-se o primeiro McDonald’s da cidade. Algumas cabeças brancas lutavam pela sua oportunidade de também provar o sabor do novo, mas a multidão era formada, principalmente, por jovens. O ataque dos McDonald’s não era apenas salivar, também atingia os hábitos de toda uma geração e o sonho de serem modernos – ou americanos por tabela.

E começou a reação. Não por acaso, nos dois países europeus que mais veneram sua própria cozinha, França e Itália, a “fast-food” foi combatida como se defende a alma. Com a sua “nouvelle cuisine” os franceses rarefizeram, se é que existe a palavra, sua comida como uma clara resposta ao “double decker” com uma Coca e fritas. Em Roma, o primeiro McDonald’s abriu perto da “Piazza di Spagna” e quase em seguida os donos de restaurantes da região organizaram, na rua, um almoço de “slow food” em desagravo indignado ao “fettuccine”, à “lasanha”, ao “carciofi alla giudia” com um sereno Chianti. O cheiro da cozinha do primeiro McDonald’s de Roma chegava ao atelier do Valentino, e o costureiro estrilou contra o acinte. O movimento “slow food” continua, mas a “fast-food”, claramente, ganhou. Nem imagino quantos McDonald’s existem hoje só em Budapeste.

Agora leio que estão havendo manifestações em Marselha contra a venda de um McDonald’s a um grupo muçulmano, que pretende transformá-lo num restaurante de comida do Meio-Oriente. O McDonald’s ameaçado serve uma zona pobre da cidade. Os funcionários estão revoltados, os sindicatos estão protestando. Quando o McDonald’s apareceu na Europa, radicais chegaram a sugerir a depredação das primeiras lojas, em defesa da cultura continental. Hoje há essa mobilização para defendê-lo. Assim gira o mundo. 

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