Fashionismo vai ao teatro

Múltiplo, Fause Haten assina figurinos de 'Alô, Dolly!' e 'O Mágico de Oz' e se firma como um dos novos talentos dos musicais

FLÁVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h12

Quando, na última sexta-feira, o elenco do musical Alô,Dolly! fazia sua estreia para convidados em São Paulo, após temporada de sucesso no Rio, um grande detalhe da montagem do clássico da Broadway adaptado e dirigido por Miguel Falabella se fazia notar: os belos figurinos. "Depois do vestido dourado que Dolly usa, pensa-se que não vai ter mais como se superar. E então ela surge para receber os aplausos vestindo um robe de chambre vermelho incrível", dizia um fã na plateia enquanto aplaudia efusivamente. "De quem é o figurino?", perguntava.

De Fause Haten. O estilista que circula, como pouquíssimos, pela arte da moda, do teatro, da música. Ele, que fez sua estreia nos musicais quando criou todo o guarda-roupa de Jekyll and Hyde, o Médico e Monstro", em 2010, firma-se como um dos mais tarimbados figurinistas dos palcos brasileiros. "Fico feliz que meu trabalho venha sendo reconhecido e respeitado. É um desafio novo, que me permite criar e me reinventar", comentou o estilista na tarde da última quinta-feira, quando recebeu a reportagem do Estado em seu QG em Pinheiros. "Aqui funciona loja, escritório, ateliê, oficina e serve até de local de ensaios e audições", explicou ele, referindo-se ao pequeno palco que mantém no espaço. "Posso ensaiar com a banda, quando preciso", contou. Haten viajaria na sexta para Vitória, onde faria show da turnê de seu primeiro disco, CDFH, de 2011.

Foi justamente sua carreira como cantor que o impediu de receber ao vivo os elogios pelo belo trabalho em Alô, Dolly! na sexta. Mas já está acostumado a equilibrar as agendas e, vez ou outra, abrir mão de alguns momentos para construir outros. "Na verdade, sinto que só agrego. A música e os shows me permitem vivenciar diretamente a relação com o público. Na moda, esta relação existe, mas é diferente. E também no teatro, em que há outra dinâmica", explicou Fause, que é formado em atuação na Escola de Teatro Célia Helena, e ainda faz aulas de canto e técnica vocal.

Para ele, a experiência como estilista acrescentou ao figurino dos trabalhos que fez a eficiência industrial e sistemática da moda, além da atenção especial sobre a personalidade e os movimentos de cada personagem. "Levei para o teatro meu método de trabalho com moda. Otimizamos o processo. Desde a forma de organizar as provas de roupa, que fazia em temas em vez de um personagem por vez, até a entrega, como se faz uma coleção, com tudo embalado, etiquetado, com anotações. Facilita o trabalho de todos."

Já o palco, por sua vez, deu a Fause a oportunidade de desenhar não só roupas, mas movimentos. "Quando criava só moda, imaginava quem poderia usar as peças. No teatro, sei para quem estou criando. Estudo movimentos, penso nas cores das roupas de acordo com a personalidade do ator e do personagem, no momento dramático em que uma peça vai ser usada", comenta.

Um bom exemplo desta sinergia entre as paixões de Fause é a cena em que Dolly Levi (Marília Pêra) volta, após anos de ausência, a frequentar o tradicional restaurante Jardim das Delícias. "Ela surge em um longo dourado belíssimo, mas que nitidamente está fora de moda, pois o comprou antes de ficar viúva, nos tempos áureos. Agora, em crise financeira, mantém a classe, mas seus modelos ficaram datados", explica.

Outro destaque são os figurinos masculinos. Ainda que os looks que os atores e bailarinos vistam percam em exuberância para os femininos (alguns modelos, como o vestido dourado de vidrilhos, paetês e lantejoulas de Dolly, que levou mais de 160 horas para ficar pronto) ganham em criatividade. Os casacos, paletós e blazers chegam em cores, cortes, formatos e versões que tiram da mesmice o guarda-roupa masculino. Inspiração que pode, e deve, ser levada para as ruas.

Por falar em inspiração, Fause é mestre em transitar pelas áreas agregando o que aprendeu em cada uma delas e acrescentando um ponto. O estilista já é famoso entre os fashionistas por realizar desfiles dramáticos e teatrais. Em fevereiro de 2011, por exemplo, levou à São Paulo Fashion Week uma tropa de Catherine Deneuves. Todas as modelos que integraram o desfile da coleção N.A.D.A, entraram na passarela usando uma peruca que remetia à personagem da atriz francesa em A Bela da Tarde, clássico de Luís Buñuel, de 1967. Para completar, um duo de bailarinos fazia uma performance em torno de um piano.

Em um exercício de hibridismo, Fause também canta em seus desfiles. No último, em outubro, na SPFW Outono-Inverno, entoou, entre outras, Homem não Chora, de Frejat. A canção está no repertório de seu novo CD, Vício, que ele lança no próximo dia 23, em show gratuito no Itaú Cultural. "No primeiro álbum, estreei como compositor e cantor. Desta vez interpreto canções que amo, como Tenho, de Sidney Magal."

Neste passeio pelas áreas artísticas, em algum momento teve receio de ser julgado por críticos e público? "Sinceramente, se pensar nas críticas, não crio nada. As pessoas já se acostumaram com este meu jeito múltiplo. Tentar o novo areja e traz novas inspirações. Tudo se comunica", responde ele, que também assinou o figurino de O Mágico de Oz (em cartaz no Teatro Alfa) e finaliza o figurino de Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta (estreia em abril no Teatro Geo). Para completar, vai assinar o figurino de mais três musicais este ano, além de desfilar no próximo dia 20 sua nova coleção na SPFW Primavera-Verão 2013/14.

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