Fashion Rio mostra busca de estilo próprio

Com muita chuva e a chegada de fato do inverno, o Fashion Rio terminou na sexta-feira no Museu de Arte Moderna, com a apresentação de 25 desfiles, encerrando, assim, a temporada de lançamentos para primavera-verão 2003/04 do eixo SP-Rio. Durante 15 dias, profissionais da moda praticaram um verdadeiro internato fashion, com seus movimentos restritos basicamente às salas de desfiles e aos lounges dos eventos. O clima no Rio foi mais ameno em todos os sentidos. Mais organizado, o evento conseguiu concentrar até seis desfiles por dia num período de apenas seis horas. Por ser temporada de verão, três grifes de moda praia vieram à passarela: Salinas (mais teen), Lenny (mais chique - alguns diziam até que é a grife mais paulista do Rio) e Blue Man (mais democrática, abraça todos os tipos em sua praia). A maioria das grifes demonstra um esforço genuíno em buscar uma identidade e se estabelecer com um estilo próprio no competitivo mercado da moda. É explícita a evolução desse espírito profissionalizante e, embora não tenha evitado o enorme fluxo de celebridades e atores globais (e também de curiosos anônimos que tinham livre acesso à área comum do MAM), o evento está mais maduro. Aos poucos, o sabor de refresco vai ganhando consistência de extrato de fruta. Mesmo após a morte de sua fundadora, a estilista Maria Cândida Sarmento, no fim do ano passado, a Maria Bonita continua a ser o nome mais forte no Rio. A jovem Danielle Jensen herdou o refinamento de sua "mestra" acrescentando frescor à grife. Com direção de Daniela Thomas, o desfile dispôs 40 modelos em degraus armados atrás da passarela criando um lindo "tableau vivant" que realçava principalmente o domínio na composição das cores. Os tons claros de cinza recebem ao final a companhia de cores vigorosas como azul-carbono, roxo-berinjela e amarelo-limão, principalmente nas bainhas - seja na regata de paetê fosco, seja na corsário de linho, seja na ótima bermuda-saruel, a melhor de toda a temporada. Cada peça exala conforto e sofisticação, com toques de roupa esportiva. O trio da moda praia - Lenny, Blue Man e Salinas - se empolgou com suas crias e acabou prolongando seus desfiles para além do tempo recomendável. Fora isso, cada uma soube demarcar claramente seu território na areia. A Lenny, de Lenny Niemeyer, deixa suas fantasias de Bali e etnias para trás e vem mais limpa, quase minimalista. Seus maiôs são brancos com detalhes de couro cru e ilhoses, são cor de areia em drapeados sensuais num tecido levíssimo. Destaque para as listras (marrom e branco combinados ao verde, rosa e berinjela), para o poá branco sobre fundo areia, para as estampas de carpa (coloridas ou em preto-e-branco). Para biquínis e maiôs tão finos, as bijoux são imponentes: colar prata-fosca de espinha-de-peixe ou "colete" de placas de madre-pérola. A Blue Man de David Azulay começa o desfile cheia de conceito, numa apresentação orquestrada pela cenógrafa e diretora de teatro Bia Lessa. Cinco atrizes vão rasgando seus pomposos vestidos brancos até encontrarem a liberdade do biquíni. A idéia é mostrar que a Blue Man atende e estimula a individualidade e, pela passarela forrada com 250 kg de purpurina dourada, passam tipos tão diversos quanto a trilha sonora: Arnaldo Antunes declamando, baladas de Elvis Presley, batuque de maracatu ao vivo e, ápice absoluto, as tchutchucas das bandas de baile funk - um produto tão autêntico e sensual quanto a praia brasileira. Entre bermudões de surfista e sunguinhas femininas com estampa de vulcão noturno ou florais jamaicanos, a Azulay como sempre capricha no aspecto artesanal. Desta vez, transpõe para seus modelos os poemas em bordado manual do artista plástico Jorge Fonseca, garantindo trabalho a 30 bordadeiras da ONG do artista em Minas. Entre as frases, "Faço qualquer coisa para chamar sua atenção" e "Foi Deus que fez você". Na Salinas, o alvo são as garotas de praia que personalizam o biquíni como se fosse sua agenda. Misturam um top xadrezinho com a calcinha camuflada, penduram corações e flores nas laterais, usam broches e lacinhos, estão sempre com um gatinho a tiracolo e também com a prancha, como a do maiô engana-mamãe usado por Luiza Lessa - uma garota descoberta pela marca através do projeto Identidade Salinas, uma pesquisa feita com as clientes pela internet. O resultado, como pretende Jacqueline De Biase, é muito "fofo". Depois de um inverno pesado e sisudo, a Santa Ephigênia chega leve e sensual ao verão com o tema Favela Couture. Caixotes de madeira dão fundo para a coleção de florais de chita transpostos para vaporosos vestidos de seda e musselina - a loja inglesa Selfridge´s já fez sua encomenda. Várias grifes mineiras batem ponto na Fashion Rio. Na estação passada, a estréia da Coven atraiu todos os flashes e elogios com seu tricô colorido, que agora ganha um ar "Dancing Days" dos anos 80, com formas blusê, vestidos bustiê rodados e mínis de babadinhos - tudo com muito lurex. Mas o efeito surpresa desta temporada ficou por conta da Drosófila, na coleção inspirada numa Cuba decadente, meio grunge, meio esportiva. Seus vestidos de renda e florais ficam esmaecidos depois de um banho de chá, mas acendem com tons de néon e, sapecas, brincam de sensualidade e romance amarrando displicentemente "liseuses" pra lá e pra cá.

Agencia Estado,

15 de julho de 2003 | 19h10

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