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Fase muito difícil

Aforte deflagração que sacudiu o planeta em seguida às acusações contra Harvey Weinstein, o todo-poderoso produtor de Hollywood que fez da carícia do corpo das mulheres e seu estupro uma especialidade e uma espécie de rotina, continua a provocar “danos colaterais”.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 02h00

Desta vez é na Suécia que essa mesma questão pega fogo. O escândalo fez tremer a Academia Sueca. E como essa academia tem por missão outorgar anualmente o Prêmio Nobel de Literatura, uma ideia insana circula há alguns dias: esse prêmio pode vir a desaparecer, ferido de morte por causa da loucura sexual de alguns homens.

Entretanto essa Academia parecia muito pacífica. Como todas as academias é uma instituição eminente, insípida e letárgica. Mas há alguns anos, um estrangeiro pleno de energia, francês (e marselhês, imagine!) ocupa ali um lugar cada vez mais influente. Ele não faz parte da ilustre entidade porque é estrangeiro, porém acabou exercendo uma espécie de “poder oculto” na instituição, graças ao seu charme, sua desfaçatez, sua habilidade de criar boas relações e também porque é marido de uma boa poeta sueca, Katarina Frostenson, que também é membro da academia. Por outro lado, o francês dirige um clube chique, o Forum, frequentado pelos acadêmicos e que se tornou o terreno de caça de Jean-Claude Arnault.

Durante anos o francês se aproveitou da situação até se fartar. Era apreciado por todos. Inculcava um pouco de fantasia nas mentes tacanhas dos acadêmicos até o dia em que, em Hollywood, o produtor Weinstein foi denunciado por uma das suas vítimas. As feministas passaram a liderar a batalha, e seu discurso funcionou como um eletrochoque: garotas, mulheres, há anos confinadas em sua vergonha e silêncio recuperaram a voz. Todo um continente até então despercebido saiu das sombras. E ficamos sabendo que em toda parte e em todas as classes sociais, mulheres humilhadas por imbecis sofriam há anos, mas estavam amordaçadas pelo medo e pela humilhação.

Com um pouco de atraso, o maremoto atingiu a Suécia e justamente a Academia de literatura, que, revoltada, decidiu colocar o dedo na ferida e o fez de uma maneira estranha: não disse uma palavra sobre o homem que desencadeou o caso, Jean-Claude Arnault. Em compensação, uma mulher foi demitida, a secretária perpétua da Academia de Letras, Sara Danius. As feministas se enfureceram. A seu apelo, duas mil mulheres se reuniram para apoiar Sara Danius. Estocolmo não é uma cidade reputada por suas festas e fantasias. O espetáculo das ruas em cólera foi um enorme sucesso, e mais ainda com todas as mulheres, imitando Sara Danius, com uma gravata Lavallière, enrolada em volta do pescoço. 

De onde vem essa gravata? De uma grande aristocrata francesa do século 18, a baronesa Louise de La Vallière. Uma bela mulher, a senhora La Vallière tinha outra especialidade: era amante do Rei Sol, o terrível e majestoso Luis XIV que guerreou contra toda a Europa, e até esse desfile em Estocolmo, ela jamais figurou entre as adeptas do feminismo. Luis XIV, se tinha um gosto pessoal, era do patriarcado. 

No segredo da Academia de Letras, as pessoas procuram apagar o incêndio. Mas é difícil porque Arnault tem apoios fortes no setor masculino da instituição. Dois acadêmicos se demitiram indignados com a “caça às bruxas”. Ativos são poucos e o que se tornará o mundo se o Prêmio Nobel de Literatura desaparecer? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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