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Faro fino

A entrevista já durava horas – e nada de uma brecha para o repórter da Playboy perguntar à atriz famosa se ela estava mesmo namorando o governador. A murmuração era insistente, mas as partes seguiam na moita. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2016 | 02h00

Foi então que o repórter reparou, sobre a mesa de centro, na cumbuca com castanhas de caju. Não quaisquer: robustas, bronzeadas, só poderiam proceder da melhor despensa, da reserva de um governador de Estado farto em cajueiros. Sim, castanhas governamentais!

O que se seguiu ilustra bem a delicadeza e graça, nele naturais, com que Guilherme Cunha Pinto se empenhava na busca de informações melindrosas. Brutalidade, mesmo em nome do jornalismo, não era com ele. E tinha faro fino. Certo de estar em boa pista, trouxe as castanhas à conversa, cutucou aqui, cutucou ali – até que a moça percebesse aonde o entrevistador queria chegar, e se pusesse, veemente, a negar tudo, imagina! absurdo! 

“Foi mal...”, desculpou-se o repórter. Ao editar a entrevista, transcreveu o divertido diálogo, pois tinha a capacidade superior de rir de si mesmo. E não é que a pista das castanhas era mesmo boa? Logo se soube, por outras fontes, que Patricia Pillar e o governador cearense Ciro Gomes de fato estavam namorando. 

Romance de longo curso, aliás – mas disso o repórter não ficaria sabendo, pois se foi quase em seguida, liquidado em poucas horas por algum devastador micro-organismo. Faz 20 anos neste 15 de julho, e ainda ouço falar, não só entre jornalistas veteranos, de Guilherme Cunha Pinto, o Jovem Gui, apelido contraído assim que entrou, pouco mais que adolescente, na redação do Jornal da Tarde, porque ali havia um xará mais velho. O texto e a pessoa, ambos refinados, do Jovem Gui. O jornalista e também o escritor, de quem recomendo, bem à mão, O Beija-Flor na Neblina, na antologia Boa Companhia: Crônicas. 

Tive o privilégio de trabalhar com ele no JT, na Veja e na Playboy, seu último pouso. Em décadas de profissão, topei e topo, cada vez menos, é verdade, com textos de alta qualidade, alguns deles capazes de sobreviver à circunstância para a qual foram escritos – mas bem poucos comparáveis aos de Guilherme Cunha Pinto. Não tenho dúvida de que sua produção nesse terreno, interrompida aos 47 anos de idade, merece seleção em livro, como se fez com Gay Talese em Fama e Anonimato, menos talvez por seu valor documental que pelo prazer da leitura. Penso em especial no que Guilherme escreveu para a Playboy

Não preciso voltar a velhos recortes para que me venha, inteira, a lembrança de reportagens como a que ele fez sobre uma sex-shop paulistana, sob o título Loja de Brinquedos para Adultos, fruto muito mais de vagarosa observação do que de declarações aspiradas por um gravador. Não estrago o prazer de eventuais futuros leitores ao revelar o surpreendente fecho da reportagem, no qual, ao cabo de um dia de trabalho, a proprietária baixa as portas e sobe ao andar de cima, transmudada de lasciva mercadora de pintos de borracha em mãe que ajuda a filha a fazer o dever de casa. 

Ou aquela reportagem, sobre os bastidores de um voo Rio-Paris, cujo antológico primeiro parágrafo faz o leitor sentir-se a bordo, com direito à sensação de despencar em meio a uma tempestade, antes de saber que ainda estamos em terra e bem longe do aeroporto. 

Lembro do dia em que o Guilherme me passou um susto ao propor matéria sobre o esperma. Que conversa era aquela?! Teria ele perdido a compostura? Não se abalou: pensava em algo cujo melhor título, infelizmente impublicável, seria Que porra é essa?. Você conhece bem?, desafiou. De vista, admiti. Ainda vacilava quando o Gui me trouxe um texto em que a informação científica (tanta coisa que eu, velhíssimo de guerra, não sabia) é servida com elegante humor, e que principia aliciando o leitor para uma conversa entre homens: “Aproveitando que a mulher mais próxima está a 8 páginas daqui...”.

A elegância, exatamente, pautava Guilherme Cunha Pinto, no teclado do computador como em tudo o mais. Sua marca transparecia até nos textos não assinados que, ao lado das fotos, davam ao marmanjo o pretexto para ter nas mãos, numa delas ao menos, uma revista de mulher pelada. 

Lembro-me do que ele escreveu quando, a pedidos, a Playboy reprisou uma beldade cuja primeira aparição causara furor. A certa altura, Guilherme se deu conta de que a moça tinha engordado. Não muito, mas o bastante para que muitos leitores pudessem perceber o incremento adiposo, pois a Playboy, também a pedidos, costumava informar sobre as medidas, peso inclusive. Num universo em que não se usa jogar revista fora, era fatal o antes/depois.

Não sei como você e eu resolveríamos o problema. O Guilherme, como de hábito, saiu-se com graça. Fulana engordou? Isso quer dizer, vendeu ele à tigrada, que “agora há mais Fulana em Fulana”.

Aposto que até a gorduchinha gostou.

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