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Farmácia portuguesa

Se der dor de barriga depois de um bacalhau com natas, não há tempo a perder

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

23 Setembro 2018 | 19h02

Quando nós decidimos mudar de país, passamos, inevitavelmente, por uma espécie de nova infância. Muita coisa tem que ser aprendida de novo. Quase tudo, na verdade. Os caminhos, as ruas, as lojas, as amizades, os transportes, os alimentos, os hábitos. Quem embarca para começar uma nova vida, tem que estar pronto para aprender tudo do zero.

Quando eu fechei as malas para vir a Lisboa viver esse amor transatlântico, estava pronta para encarar todos os desafios da vida nova. Só não me lembrei de um problema: as questões farmacêuticas. Trouxe uma abençoada bolsinha com os medicamentos básicos emergenciais, feita pela minha maravilhosa madrinha médica, que achei que seria suficiente por cerca de duas décadas, mas dados os terríveis bichos voadores invisíveis do Hemisfério Norte, logo me vi com novas demandas que me levaram às farmácias portuguesas. E a coisa foi mais complicada do que eu poderia esperar.

Jamais poderia imaginar que um remédio tão básico quanto um tylenolzinho pudesse ser chamado de Ben-u-ron por aqui. Ben-u-ron! Ben-u-ron é nome de gladiador, não de analgésico, como pode uma coisa dessas? Na mesma linha, também tive que aprender que o Advil, aqui se chama Brufen, mas dessa vez não foi um processo tão traumático assim. Achei que estava ficando mais fácil, mas me enganava.

Quando machuquei o dedo, descobri que Nebacetin é Bacitracina e que- pasmem-band-aid se chama penso. Tipo “Penso, logo existo”, que, pela lógica, no Brasil deveria ser “Band-aid, logo existo”. Pior ainda foi descobrir que absorvente também é penso, porém, com sobrenome: penso higiênico- o que me faz questionar se o band-aid seria o penso anti-higiênico. Para piorar, descobri que esparadrapo não tem nome. Simples assim, não dá para pedir um esparadrapo na farmácia, tem que pedir “aquela fita adesiva para colar a gaze ou o algodão na pele da pessoa que se machucou”.

Quando o inverno chegou, descobri que o primo mais próximo do naldecon era o antigrippine e que o número de comprimidos para vencer uma gripe no inverno europeu é cerca de 700 vezes maior do que eu estava habituada. Terrível. Na primavera, com o romântico e bucólico advento da polinização, descobri que o allegra aqui se chama telfast, e que ele seria meu companheiro diário até a chegada do verão. Minha saúde era melhor no hemisfério sul, devo confessar.

Todavia, o que mais me chocou foi saber que nesse país maravilhoso onde se bebe vinho com mais frequência do que se bebe água, o santo Engov nem sequer existe. Isso é um verdadeiro perigo, um risco assombroso. Contudo, eles têm aqui uma coisa efervescente chamada guronsan, que não evita a ressaca da véspera, mas te ajuda um pouco a tentar sair dela quando você já está sofrendo arrependido no sofá na manhã seguinte. E devo dizer que geralmente essa não é uma missão nada fácil.

Nas questões de dor de barriga tive que descobrir que, para conseguirmos o efeito rolha contra uma diarreia violenta, em vez de recorrermos ao imosec, temos que recorrer ao imodium. E quando o problema tem a ver com a ingestão de comidas que fermentam na barriga, em ver de orar a Nossa Senhora do Luftal, oramos a Nossa Senhora do Dulcogas. Pelo menos o eno segue sendo eno, sem maiores desafios para além da digestão em si mesma.

Portugal é um país maravilhoso que todos deveriam visitar pelo menos uma vez na vida. Caso venham, sugiro que tragam seus remedinhos na bagagem. Caso contrário, tragam pelo mesmo esse texto dobradinho em quarto dentro da mala, para vocês não passarem os apuros que passei até descobrir todas essas traduções medicamentosas. Espero que não seja necessário, mas, na dúvida, melhor pecar pelo excesso, né? Sobretudo se der dor de barriga depois de um bacalhau com natas, não há tempo a perder minha gente.

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