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Fardo da barbárie

Filme fala sobre o Holocausto, documentando o percurso anual de jovens na Polônia

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

03 de maio de 2011 | 06h00

Jessica Sanders pertence a uma tradicional família de documentaristas. A avó foi indicada para o Oscar da Academia de Hollywood, o pai e a mãe também foram indicados (e venceram o prêmio). Jessica criou-se, como diz, em permanente choque de realidade. Talvez seja por isso que ela admita, sem culpa, ter tanto prazer em dirigir comerciais. "São ótimos, como exercícios de criatividade." Jessica nunca havia imaginado que um dia faria um filme sobre o Holocausto, mas fez, e com produção brasileira.

A jovem diretora norte-americana foi convidada pela Conspiração Filmes para dirigir Marcha da Vida. De cara, ela hesitou um pouco, mas logo foi seduzida pela ideia de tentar acrescentar um olhar novo a um assunto já tão investigado pelo cinema. Tudo ocorreu rapidamente. Em janeiro de 2008, ela foi sondada, em fevereiro já estava na Polônia, visitando o que seria o principal set do filme. Marcha da Vida acompanha jovens de diferentes partes do mundo, inclusive do Brasil, que visitam os campos de extermínio dos nazistas.

O filme segue esses jovens e também colhe depoimentos de velhos sobreviventes da barbárie. Era o que havia de mais bacana no projeto, Jessica avalia. Esses velhos que compartilham suas histórias com a câmera estão morrendo - um deles morreu na semana passada - e manifestam a preocupação de que seu testemunho permaneça para evitar que o horror se repita. A esperança está nos jovens de 40 países, incluindo Brasil, Israel, EUA e Alemanha, que realizam anualmente a marcha da vida.

A diretora conta (leia entrevista abaixo) que filmou rapidamente, e com uma equipe na maior parte brasileira. A montagem foi mais demorada e, mesmo assim, ela tinha um prazo - a produção consumiu, no total, dois anos até ficar pronta. O duplo desafio de Jessica não foi tanto achar o fio para contar a história - a peregrinação já fornecia uma espécie de espinha dorsal -, mas evitar o pessimismo. Pois ela queria que o filme fosse positivo, que falasse de vida e da possibilidade de um mundo melhor e mais tolerante.

Há dez anos, Jessica foi indicada para o Oscar pelo curta documental e experimental Sing!. Anterior ao seu envolvimento, a ideia de documentar a marcha da vida - que já estava completando 20 anos -, veio do publicitário e escritor Márcio Pitliuk. Brasileiro, ele imaginou um pacote completo - livro, documentário e cobertura ao vivo para rádio. O livro foi feito com fotos de Márcio Scavone. A Conspiração Filmes foi acionada e incorporou Jessica ao projeto. Munida de câmera, ela selecionou seus personagens e se colocou na estrada, seguindo as 10 mil pessoas que, todo ano, percorrem a pé os três quilômetros que separam os campos de Auschwitz e Birkenau. O percurso é o mesmo que judeus presos pelos nazistas faziam até o campo de extermínio. A consciência da morte próxima era companheira daqueles andarilhos.

Nos anos 1950, num documentário de 32 minutos que se tornou clássico, Nuit et Brouillard, Alain Resnais já visitara os campos abandonados de Auschwitz e Majdanek. Usando material de arquivo e o texto escrito por Jean Cayrol - magnificamente recitado por Michel Bouquet -, o grande autor da memória no cinema investigava o horror da máquina de morte montada por Adolf Hitler e seus asseclas. Jessica Sanders admite que não conhece o filme de Resnais. São diferentes na forma, mas irmãos na advertência.

ENTREVISTA

Jessica Sanders

CINEASTA, DOCUMENTARISTA

"Queria enfocar a esperança"

Como foi o seu envolvimento para dirigir Marcha da Vida?

Foi inesperado até para mim. Nunca havia imaginado fazer um filme sobre o Holocausto. Além de ser um tema muito explorado pelo cinema, deu origem a grandes filmes como A Lista de Schindler, o que é intimidante. Mas, a partir do momento em que entrei, busquei o que seria o meu recorte. Os depoimentos dos idosos, que estão morrendo, a juventude que terá de carregar esse fardo, mas eu queria falar de esperança. Nunca imaginei que Marcha da Vida não pudesse ser outra coisa senão uma história de esperança.

Você é diretora de comerciais. Há um preconceito grande contra quem faz esse tipo de filme.  O que você acha?

Venho de uma família de documentaristas. Meus pais, minha avó, todo mundo sempre fez documentários e, desde menina, tive meus olhos abertos para a realidade. Gosto de fazer documentários, mas a publicidade satisfaz minha necessidade de rapidez e de experimentar. O comercial também conta uma história e o faz com urgência. É possível e até necessário experimentar, e o que se experimenta em termos de linguagem pode ser levado para o documentário e a ficção, por que não?

O que você aprendeu documentando Marcha da Vida?

A importância da memória e a esperança, que acho que o filme transmite, de que o respeito à diferença é fundamental. / L.C.M.

MARCHA DA VIDA

Nome orignal: March of the Living. Direção: Jessica Sanders. Gênero: Documentário (Brasil-EUA /2010, 81 min.). Censura: Livre.

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