Fantine não veste Prada

Anne Hathaway, Anne Hathaway fala do seu novo filme, Os Miseráveis, da influência da mãe atriz e da vontade de ter um filho

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h11

De O Diabo Veste Prada até Os Miseráveis, passando por O Casamento de Rachel, Rio, Um Dia e Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, a trajetória de Anne Hathaway se faz pertinente, exigente e bem-sucedida. Ela conta seus segredos numa entrevista realizada na suíte de luxo de um grande hotel (O Mandarin) junto ao Central Park.

Fantine é uma personagem emblemática do romance de Victor Hugo que inspirou o musical. Você já a conhecia?

Fantine sempre fez parte da minha vida, sem exagero algum. Minha mãe (NR - a atriz Kate MacCauley) integrou o coro das costureiras e das prostitutas, logo que a peça estreou, e chegou a fazer Fantine na primeira turnê pela América. Ela é uma figura extraordinária. Poderia ter tido uma grande carreira, mas largou tudo para ser mãe. Só que ela nunca deixou de cantar e, criança, eu a ouvia cantarolar os hits de Os Miseráveis. Mal sabia eu que um dia faria o papel. Foi uma coincidência, talvez, mas ao assinar para fazer Fantine, eu me dei conta de que, de todos os meus papéis, esse teria um significado especial - por ela e para ela.

Você foi aplaudida em cena aberta, quando canta. O que isso representa para você?

Que eu fiz bem a personagem? Tom (Hooper) é um fantástico diretor de atores. Se você já tem um grau de exigência, ele o aumenta, mas o faz sem violência. Você não se sente usada, maltratada, violada em cena para servir a personagem. É curioso, há um grau de artifício nessa coisa de você cantar e dançar o tempo, mas a exigência de Fantine, e de Os Miseráveis, é que o livro, a peça musical e o filme são todos viscerais, como experiências humanas e sociais. Aquela gente sofre demais, conhece a exclusão social. O embate entre Jean Valjean e Javert é emblemático, na história da literatura. Tudo isso tinha de passar para a tela, e era preciso cantar se despedaçando, como se coisa viesse de dentro, das tripas. Mas não vejo Fantine como exceção na minha carreira, pelo contrário. Não sou nenhuma de minhas personagens, e todas são eu, têm alguma coisa de mim. Elas foram crescendo e se consolidando. Sem O Diário de Uma Princesa eu talvez não tivesse sido chamada para fazer a Andrea de O Diabo Veste Prada, sem O Casamento de Rachel eu talvez não tivesse feito Um Dia. Até a Selina Kyle de Batman tem uma história de vida. Gosto de pensar que empresto alguma coisa a todas essas figuras sem ser nenhuma delas, mas sendo, porque o retorno do público, o que você me diz, insinua que estou numa boa via. O que me interessa no cinema não é o glamour. O glamour pode até fazer parte, mas as histórias, as personagens, entender e dar vida ao outro, à outra, enfim, isso é o que importa.

Você é elegantérrima. Isso faz parte da estratégia da construção de uma imagem?

Visto o que me cai bem, o que me deixa à vontade. Não penso em termos de imagem - tenho de fazer isso para ser capa da Vogue. Quando Tom (Hooper) me disse que eu teria de emagrecer mais, ótimo, vamos lá. Eu lhe sugeri que cortasse meus cabelos. Quando vi o resultado experimentei um estranhamento muito grande, mas cheguei à conclusão de que estava parecendo meu irmão gay e então estava tudo certo. Não estou mantendo o cabelo curto como parte do marketing de lançamento de Os Miseráveis. O cabelo vai crescer, por enquanto ainda não. Curto esse visual. Minhas amigas também curtem.

Você acaba tendo algum tempo para as amizades?

Mas que idealização você faz da vida de uma atriz de cinema? OK, a gente forma muitas famílias, trabalhando durante meses com as mesmas pessoas, mas, exceto quando estou filmando, sou uma garota caseira. Gosto de coisas simples. Não descuido de meu cachorro - você pode nem notar, mas eu estou aqui falando e com o ouvido lá no corredor. Ouço quando ele late, gane. Saio sempre com minhas amigas, para almoçar ou jantar. É um ritual que cumprimos pelo menos uma vez por mês. Minhas amigas são as mesmas de quando eu estava na escola. Somos muito ligadas. A maioria tem carreira, mas conversamos de namorados, de maridos. Quando uma casa, a madrinha é sempre do grupo. Tenho essa fantasia de que vou ficar para sempre ligada nelas. Vamos envelhecer trocando experiências.

Você aprendeu alguma coisa com Fantine?

Hugh (Jackman) é um dos atores mais conscientes e politizados que conheço. Ele já leu duas ou três vezes o romance de Victor Hugo e vivia conversando com Tom (Hooper) sobre a atualidade do livro. São quase dois séculos, a Comuna de Paris, essas coisas, mas a essência, a miséria, a exclusão, o aviltamento da dignidade humana, tudo isso ocorre a toda hora. O século 21 mudou muito, mudou tudo, mas certas coisas não diferem do século 19. O que mais me tocou em Fantine é sua devoção à filha. Estou louca para ser mãe. Foi um exercício muito forte para mim.

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