Fantástica rima popular

Rapper Sombra prepara lançamento de seu segundo disco solo, em que reflete sobre um hip-hop acessível a todos

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2013 | 02h11

A polifonia cultural que Sombra constrói em suas rimas é uma resposta inconsciente à abrangência que o hip hop brasileiro tem hoje. Em questão de compassos, seu sotaque baiano via Zona Norte de SP pode ecoar um feirante, pastor evangélico, cantor romântico ou um gângster da periferia. Seu rap é tinhoso, cheio de ironias caricatas e abstrações poéticas, ao mesmo tempo em que fala de honra, corrupção e maconha.

Como se escuta na faixa O Homem Sem Face, forma discursos contemporâneos, que, como Criolo, Emicida ou Kamau, falam a um público de vários segmentos sociais ao mesmo tempo. Aos 37 anos, com mais de 20 de escola no underground do rap paulista, Sombra prepara o lançamento do segundo disco solo, Fantástico Mundo Popular, fruto de reflexões sobre o estado do rap nacional de hoje. O álbum, que deve chegar no fim do mês, e tem show de lançamento marcado para semana que vem, tem batidas de Marcelo Cabral, parceiro de Criolo, e apoio do canil/centro de cultura Matilha Cultural, que também ajudou o incensado MC a lançar Nó Na Orelha.

Embora não mostre um potencial de crossover pop como o disco de Criolo (parceiro de Sombra de outros tempos), é o disco de um rapper maduro, no auge de seus poderes, com fundamento e o dedo na veia contemporânea do gênero que vez ou outra supera, em suas rimas, o talento de qualquer base que possa acompanha-lo. O rapper recebeu o Estado no café da Matilha Cultural, e falou sobre hip-hop, o disco, política e maconha.

O título Fantástico Mundo Popular pode ser interpretado de diversas formas. Tem a ver com o estado do rap brasileiro?

O título tem a ver com tudo. A mudança de vida do povão nos últimos anos. Essa coisa caótica de vários estilos que vemos no universo popular. O fato de que o hip hop voltou a ser mainstream por causa da inclusão digital, o que ajudou o povo a ter mais conhecimento do que era menos acessível. A proposta é dialogar com o povão. Um corpo a corpo com as pessoas.

Falando em diálogos, o Criolo, que colaborou com você antes de ficar famoso, ficou conhecido entre classes mais altas e ainda tem seguidores na periferia. Como se encaixa essa proposta do seu disco nos vários nichos que acompanham o hip hop hoje?

No caso do Criolo, é uma questão do tipo de comunicação que ele faz por meio do trabalho dele. Ele é um exemplo dessa inclusão digital, que deixou uma nova geração ficar mais antenada em coisas que estão surgindo. Não se pode pensar em classe A nem B nem C. Quando falo de música popular, é isso. Digo: 'Vou tomar uma Coca-Cola'. O rico sabe o que é. O pobre também. Então, a música tem de proporcionar isso. Vou a um show de rap e me perguntam: 'De quem?'. Do Sombra. Tanto o moleque, quanto o senhor de terceira idade, ou quem está à margem, tem de saber. É essa a proporção que buscamos.

Em entrevista, você me parece uma pessoa reservada, bem diferente do personagem que você encarna ao rimar.

Pude ironizar mais neste disco. Canto mais, me manifesto sobre coisas mais sérias, como política, e coisas banais, e mudo o tom. O trabalho solo dá uma liberdade que eu não teria nos outros projetos em que trabalho. No disco, estou livre para dar essa extrapolada.

Eu me refiro também ao jeito como você canta. Há diversos tipos de vozes, um cinismo, um tom caricato, uma coisa que o Criolo também faz.

Estudo muito o jeito que as pessoas cantam. Tanto as coisas estrangeiras, quanto a música nacional, regional além do rap. Costumo falar para os caras: desde Michael Jackson, Amado Batista, Wu Tang Clan a Roberto Carlos. A gente ouve e aprende a cantar com tudo isso.

Penso até em Jovem Guarda quando escuto sua música. Esse sotaque, essa acessibilidade, não perde um pouco da visceralidade do rap brasileiro que fala de crime na periferia?

São épocas. Houve uma época em que o Gangsta rap aqui no Brasil fazia mais sentido, até em relação ao que o pessoal estava ouvindo com as coisas que aconteciam nos EUA. Mas foi uma época. Há quem goste, outros que cultivam, outros nem estão cientes. Estas fases ainda ecoam em vários segmentos do rap. Existem vários estilos na mesma batida. O charme, o Gangsta. Tem o rap mais extrovertido, que ironiza, tem o cara mais social, que politiza. E tem nós, que tentamos abranger tudo. Ser um pouco gangsta, um pouco irreverente, e se puder, um pouco romântico, por que não?

Isto é algo que o Sabotage (ainda uma influência notável em muitos rappers de SP) fazia.

Sim, ele contava que ouvia muita coisa, principalmente o hip hop americano. Dizia: 'Eu escuto, vou lá, me influencio, não tenho medo'. Tem música que faço parecido. Só ponho uma letra em português em cima de uma batida deles.

Vocês eram próximos?

Conheci o Sabotage pelo Sandrão do RZO. Ele queria fazer uma música com o meu grupo, o SNJ. Gravamos juntos a faixa Cocaína. Ele influenciou todos nós, pelo discurso, pelo jeito com que cantava, pela forma que se portava diante de onde vinha, e principalmente pela sua relação com o grande público, que fez com que sua persona tomasse outras dimensões, como músico popular, como ator.

O single de Fantástico Mundo Popular já está disponível e chama-se O Homem Sem Face. Parece falar de política...

Sim. Fala sobre pessoas que passam a ideia de uma coisa, mas são outra, sem caráter, dignidade, honra. A música é bem pertinente ao que se passa com as manifestações e descontentamento político no Brasil nas últimas semanas. Mas isso é um assunto sensível. Já vejo que os políticos estão se aproveitando dessa onda. Por isso, é importante se manifestar artisticamente de maneira coesa.

A faixa Mano Eu Vou Ali Comprar Um Chá Parte 2 fala de maconha, e é a sequência de uma de suas faixas conhecidas. O que o rap tem a dizer sobre a erva hoje em dia?

Já que abordamos o tema, me assumo como usuário do pé de planta. Aqui na América do Sul (na Argentina e no Uruguai), a legalização tramita no congresso dos caras. No Brasil, nem chega perto. Mesmo assim, é um tema que precisa ser revisto, porque, se a indústria do álcool e do tabaco funcionam livremente no País, temos que pensar porque algo como uma erva cultivada não pode ser.

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