Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Fantasmas Flutuantes

Na obra Errante, artista mexicano Héctor Zamora coloca árvores sobre o Rio Tamanduateí

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

Nove árvores suspensas sobre um trecho do Rio Tamanduateí, entre os fundos do Mercado Municipal e o Parque D. Pedro II, se tornam, como diz o arquiteto e urbanista Guilherme Wisnik, "fantasmas" da vida daquela paisagem poderosa e problemática da cidade de São Paulo. De agora e até fim de novembro, um ipê-rosa, de cerca de 7 metros, flutua parado sobre as águas sujas do rio, bem de frente para o que vai se tornando a carcaça de um dos prédios mais emblemáticos daquela região, o Edifício São Vito, em processo de demolição. Mas, de certa maneira, natureza e pobreza não chegam a se contrastar na experiência da obra Errante, criada pelo artista mexicano Héctor Zamora dentro do Projeto Margem, realizado pelo Itaú Cultural e com curadoria de Wisnik.

Esse trabalho de intervenção pública de Zamora, que tem sua inauguração oficialmente marcada para amanhã, mas que vem sendo montado há um mês, transforma-se numa "imagem surrealista", diz o curador, em plena cidade. "Estranhar o familiar é um conceito freudiano e nosso objetivo era esse, desautomatizar a percepção do lugar, propor uma nova experiência no centro de São Paulo", afirma ainda Wisnik. Pela efemeridade da obra, ela é "um comentário passageiro" que pode mostrar outra realidade.

As nove árvores, de espécies diferentes, suspensas e ancoradas por cabos de aço, colocadas em estruturas que remetem a vasos, formam uma espécie de linha curva em cima do Tamanduateí. Mas, curiosamente, as plantas nos parecem uma vida frágil e delicada em meio a viadutos, carros, ônibus, carcaças do São Vito e do Edifício Mercúrio e moradores de rua às margens do rio engavetado por cimento. Como afirmou um passante pelo "jardim suspenso" Errante, inevitavelmente, é a pobreza que clama por mais atenção.

Ironia. Entretanto, esse embate entre a obra e uma paisagem urbana que se tornou "um não-lugar desertificado" por uma soma de erros urbanísticos, como diz Wisnik, é intrínseco à proposta do projeto. Errante, título da obra, é palavra que carrega significados simbólicos como equívoco, mas também lembra algo vacilante, ou nômade e que anda ao acaso (daí o curador afirmar que as árvores da trabalho artístico remetem a "fantasmas" dos já viveram naqueles edifícios ou que vivenciaram o extinto Parque D. Pedro II, a várzea do Carmo - e, por que não?, ainda dos moradores de rua e mendigos de hoje).

"Tem algo de irônico com as árvores em situação suspensa, que poderia sair do controle, mas que não, está no lugar", afirma Héctor Zamora. "Não se trata de um embelezamento do local, mas de uma reação ao contexto", continua o artista, nascido na Cidade do México, mas que vive em São Paulo. Ao realizar um trabalho naquela região específica da cidade, Zamora teve de lidar com um tipo de violência natural do local, com "uma picada de serpente e não a de um mosquito". Ele ressalta que interessava criar uma obra para um lugar em que fosse possível se ter acesso como pedestre - o público ou transeuntes podem percorrer aquela área. "Assim se tem uma escala (do trabalho); sobre (os rios) Tietê ou o Pinheiros você só veria a obra de carro".

Indefinição. Lançado no ano passado com seminário no Itaú Cultural, o Projeto Margem, na concepção de Guilherme Wisnik, teria como mote promover reflexão sobre a problemática histórica de cidades a partir de seus rios. A princípio, artistas seriam convidados a elaborar trabalhos de intervenção em São Paulo, Porto Alegre, Corumbá, Goiânia, Juazeiro, Petrolina, Belo Horizonte, Belém, Palmas, Manaus, Porto Velho, Rio Branco e no Recife.

Porém, Errante, trabalho criado por Héctor Zamora na paisagem paulistana do Tamanduateí, pode ser tanto considerado o marco da concretização de um amplo programa como se transformar na obra única do Projeto Margem. "Não sabemos ainda se terá continuidade. Vai depender da dinâmica da próxima obra, do espaço, da viabilidade para que aconteça", afirma o superintendente do Itaú Cultural, Eduardo Saron. "É um projeto experimental, de intervenção pesada na cidade e que por sua complexidade envolve o risco e uma incerteza muito alta", continua Saron, sem revelar o montante de recursos envolvidos no programa. "Certamente é muito caro, o que também pesa", diz o superintendente da instituição.

Segundo Guilherme Wisnik, a obra de Héctor Zamora (iniciada já no ano passado - por exemplo, as árvores utilizadas, adquiridas pela instituição e a serem doadas, foram preparadas em viveiro por cerca de cinco meses) faz parte da fase inicial do Projeto Margem, que ainda incluiria intervenções públicas dos artistas Ana Maria Tavares (para Porto Alegre) e Nuno Ramos (para Manaus) por uma data indefinida e a partir de 2011. "O critério é que o artista não seja da cidade (para a qual criasse sua obra). O estranhamento começa já nessa relação entre ele e o lugar", diz o arquiteto e urbanista.

ERRANTE

Informações podem ser obtidas no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149, tels. 2168-1776/ 2168-1777 e em www.itaucultural.org.br). Até 28/11.

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