Fantasmas de Trotski em Coyoacán

Coyoacán é um dos bairros mais vibrantes da Cidade do México. Há meio século, ele era apenas um pueblo, como tantos outros nos arredores da capital: Mixcoac, Tacubaya, San Ángel e Tlalpan, quase todos com seus conventos, igrejas, praças, ruínas pré-hispânicas. Octavio Paz assinalou que "incontáveis edifícios históricos em todo o México foram demolidos ou desonrados pela barbárie, incúria e avidez do lucro". Apesar disso, ainda há fortes vestígios do passado em Coyoacán: igrejas coloniais esplêndidas, casas "solariegas", ruas e becos arborizados e pequenas praças que são lugares de calmaria e prazer visual numa das maiores cidades do mundo, e talvez a mais fascinante desta América.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2012 | 03h25

Andava por Coyoacán quando vi uma placa singela: Museo Trotski. Ao contrário do museu Frida Kahlo - a mais festejada artista mexicana do século 20 -, não havia fila para comprar ingressos. Por curiosidade histórica, entrei no museu quase vazio e comecei a observar fotografias da época em que Trotski viveu em Coyoacán.

Perseguido por Stalin, Leon Trotski chegou ao México em janeiro de 1937. Diego Rivera e Frida Kahlo lhe deram abrigo na "Casa Azul" da Rua Londres, no coração de Coyoacán. Morou nessa casa até maio de 1939, quando se mudou para o número 19 da Rua Viena. Dizem que ele e Frida tiveram um caso amoroso, embora a artista tenha pintado o rosto de Stalin num de seus quadros. Nem sempre a ideologia destrói amizades e namoros. O certo é que em 20 de agosto de 1940 Trotski foi golpeado mortalmente pelo catalão Ramón Mercader, cujos codinomes eram Jacques Mornard e Frank Jacson.

Há filmes e romances sobre essa história de traições, intrigas, calúnias e perseguições que envolveram o covarde assassinato de Trotski. Às vezes, grandes assassinatos políticos passam pela sedução. Durante uma reunião política em Paris, Ramón seduziu a norte-americana Sylvia Agelott, que viria a ser a secretária de Trotski na cidade do México. Depois, Ramón se aproximou da família do exilado e dos guardas que protegiam a casa da Rua Viena.

Enquanto visitava essa casa, cujo interior é modestíssimo, pensava nas razões que levaram Trotski a confiar em seu assassino. O ex-comandante do Exército Vermelho podia ser tudo, menos ingênuo. Certamente foi um dos mais hábeis e corajosos líderes comunistas, e não seria inexato dizer que foi um cruel e implacável no comando militar. No exílio imposto por Stalin, Trotski refugiou-se na Turquia, França e Noruega antes de se exilar na capital mexicana. Na noite de 24 de maio de 1940, um grupo de stalinistas chefiado pelo artista David Siqueiros invadiu a casa da Rua Viena e metralhou o quarto onde Leon e Natasha dormiam. Ambos escaparam desse atentado, planejado por Ramón.

Por precaução, a metade da janela do quarto do casal foi tapada com alvenaria; a porta, agora blindada, estreitou-se. De uma torre erguida no quintal, vigias controlavam o movimento nos arredores da casa e a entrada de visitantes. A água escura do Rio Churubusco ainda corria a poucos metros da Rua Viena. No pacato pueblo de Coyoacán, a vida do exilado tornou-se uma prisão domiciliar.

O guia da visita era um jovem mexicano simpático e falastrão. Alternava o nome de Stalin com "o criminoso"; falava com a segurança de quem havia lido os três volumes da excelente biografia de Trotski, escrita por Isaac Deutscher. Visitamos a cozinha, a sala, a biblioteca e o jardim, onde o casal Trotski cuidava de uma horta e criava coelhos. Também no jardim o revolucionário banido foi enterrado. Vi a torre dos vigias coberta de musgo e imaginei que na tarde do dia 20 de agosto de 1940 Jacques Mornard , parado na Rua Viena, acenara para os guardas. Desta vez, Mornard ou Mercader não visitaria sua namorada, e sim Trotski. Queria mostrar ao exilado um artigo político. Fluente em várias línguas, e pretenso estudioso de política internacional numa época em que a Espanha e quase toda a Europa estavam em chamas, o assassino persuadira sua vítima a ler ou revisar um ensaio.

No final da tarde nublada entramos no escritório, onde Trotski começara a ler o texto de Mornard. Nesse momento o guia, indignado, apontou o exato lugar onde o assassino erguera a pequena picareta de alpinista e golpeara por trás a cabeça da vítima. Seis horas em ponto. Esse momento da visita coincidia com o do assassinato. Da janela do escritório avistava-se a lápide de cimento, cercada de cactos e arbustos. Escurecia.

Eu disse ao guia que Trotski, ferido mortalmente, apontara para o algoz e balbuciara em espanhol: "Não o matem... Ele deve falar...".

O guia, ansioso, imediatamente me corrigiu. Trotski disse: "Não o matem... Esse homem tem uma história para contar".

Essa última versão me parece mais plausível. A história - trama política - e a voz estão implicadas na mesma frase agônica: uma história para contar.

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