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Fantasias de Natal

Aos 4 anos, pedi um par de muletas e Papai Noel não trouxe. Agora não quero mais

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

25 de dezembro de 2018 | 02h00

A longa sucessão de choques de realidade que a vida nos reserva, do berço ao túmulo, frequentemente principia com o enunciado de uma frase perversa com a qual algum espírito de porco põe a pique uma de nossas mais excitantes ilusões: 

– Ainda não sabe que o Papai Noel é o pai da gente?

***

Com você, como foi que aconteceu?

Comigo, já não me lembro. A revelação, que eu saiba, não chegou a me traumatizar. Na extensa prole do doutor Hugo e da dona Wanda, que puseram no mundo um time de basquete feminino e um de vôlei masculino, fui o segundo a dar as caras, e não creio que o choque tenha sido provocado pelo primogênito Rodrigo, extrovertido a mais não poder. Era ele quem nos acordava nas manhãs de 25 de dezembro, quando as duas portas da sala ainda estavam trancadas. 

Com o papai e a mamãe Noel ainda ferrados no sono, gramávamos uma torturante espera. Nada nos restava senão nos revezarmos no buraco da fechadura para divisar, ao fundo, repousando no sofá, as pilhas de presentes trazidos no Polo Norte – o qual nem desconfiávamos ser, entre outros endereços, a Casa Sloper. Confesso que nunca me ocorreu perguntar aos pais, ou mesmo aos meus botões, por onde o Bom Velhinho conseguia entrar naquela casa desprovida de lareira & chaminé. 

Não me lembro de ter sido mal atendido em qualquer dos meus Natais da infância. Nem mesmo quando, às vésperas de completar 4 anos, não encontrei sobre o sofá um dos três presentes que havia encomendado. 

Dois deles chegaram sem problemas, e fiz questão de que aparecessem numa foto de grupo, feita semanas mais tarde, na fazenda. No gramado em frente ao Roseiral, como se chamava a casa de campo da vovó, lá estou eu, de cócoras, na linha de frente de um mar de netos aglomerados em torno de uma sorridente dona Dora. De óculos escuros pouco mais que zero km, tenho as mãos cruzadas, num evidente esforço para tornar visível o anel de prata no mindinho – meu ansiado anel “de chapinha”, isto é, provido de uma superfície oval para gravação de iniciais. 

Adulto, custei a me reconhecer na foto; foi preciso que minha mãe apontasse: “Você é esta marmota aqui”. Falou então de meu terceiro pedido, que por boas razões os prepostos do Papai Noel houveram por bem não atender: um par de muletas. 

Sim, muletas – mas não porque o pedinte fosse, além de marmota, um tipinho mórbido: aquilo tinha para mim apelo semelhante ao das pernas de pau com que via o artista se exibir no circo. Aparato lúdico, nada mais que isto.

Tantas décadas depois, quase temo que o Papai Noel, num 25 de dezembro, venha a entregar ao senhor maduro a mercadoria que sonegou ao menino, para atender não mais a fantasias circenses, mas a imperativos ortopédicos.

***

Meu pai, este sim, sofreu decepção enorme quando a natureza o colocou diante da evidência de que o Papai Noel não existia.

Apaixonado desde sempre pelas aves, houve um Natal em que o infante Hugo pediu ao rubicundo presenteador “um passarinho diferente”. Os irmãos, todos mais velhos do que ele, coçaram as cabeças, aliás àquela altura já um tanto escalvadas. Ao contrário do caçula, nenhum era passarinheiro; mas criatividade não lhes faltava: providenciaram uma ave plebeia, além de pincéis e tintas, e recobriram as penas com todas as cores da paleta, convertendo a criaturinha num delírio cromático provido de asas.

No dia de Natal, o menino – que, já bigodudo, viria a se notabilizar como ambientalista, num tempo em que a palavra nem sequer fora criada (o primeiro registro escrito, esclarece o dicionário Houaiss, é de 1984) – o menino, dizia eu, se deparou, sob a árvore, com uma gaiola dourada em cujo poleiro pousava inédita maravilha multicolorida. Tão logo o queixo deixou de estar caído, quis saber o nome da espécie, detalhe em que nenhum dos irmãos havia pensado. “Camuflagem”, improvisou um deles. Mais exatamente, Camouflage, vocábulo francês, idioma então bem mais prestigioso que o inglês, para designar “disfarce”.

Durante meses reinou Huguinho sobre a meninada do bairro, para lá e para cá com a gaiola de seu Camouflage, ser prodigioso do qual nem os passarinheiros veteranos conheciam similar. 

Assim foi até que chegasse a época da muda, quando, em poucos dias, a natureza depenou a ave por inteiro, abrindo espaço para plumagem nova, processo em que o assombro policromático voltou a ser uma triste e vulgar fêmea de papa-capim, espécie que ninguém se daria ao trabalho de ostentar numa gaiola, muito menos dourada.

***

Em matéria de decepção natalina, sou mais aquela pela qual passou o finado confrade João Ubaldo Ribeiro, por ele narrada com enorme graça numa crônica. Numa noite de 24 de dezembro, ele e sua patota pré-adolescente se postaram em lugar escuro para flagrar, na fornalha da ilha de Itaparica, a chegada do trenó puxado por juntas de renas. Dali viram um homem com roupas convencionais saltar furtivamente a janela de uma dona avulsa – e assim vieram a saber que nesta vida há fantasias bem mais excitantes que a farda rubra do Papai Noel.

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