Fantasia francesa com sotaque brasileiro

Lançada primeiro na França, série da carioca Pauline Alphen chega ao País

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2012 | 03h09

Tem gente que passa a vida procurando o tema do livro que um dia talvez venha a escrever. Outros têm o tema e não saem do lugar. Mas tem gente que, como num passe de mágica, ganha um de presente e, de quebra, assunto para pelo menos cinco livros. Pauline Alphen não procurava nada. Só corria mal-humorada debaixo de chuva atrás do ônibus quando ganhou o seu. Era uma manhã de outono em Paris, ela tinha acabado de deixar o filho na creche e estava atrasada para o trabalho. Mesmo com tudo isso, pode reparar no pai que, do alto de um prédio, acompanhava a filha atravessar o pátio para encontrar o irmão gêmeo.

De pé no ônibus, fez as primeiras anotações do que se tornaria, anos mais tarde, a série fantástica Crônicas de Salicanda. "Foi como se eu tivesse aberto uma porta. Percebi que eu tinha puxado um fio de uma meada e que a história tinha várias possibilidades e era muito mais complexa", diz. Passou sete anos construindo o enredo, desenhando esquemas e criando os 31 personagens do primeiro volume - Os Gêmeos, que a Companhia das Letras lança em 20 de janeiro.

Na França, a série vem sendo publicada pela Hachette, o sexto maior grupo editorial do mundo. Os dois primeiros volumes venderam, juntos, mais de 20 mil exemplares. O terceiro está programado para 2012.

Apesar de tocar em temas que podem ser trabalhados em sala de aula, característica sempre valorizada pelo mercado editorial que sonha com as polpudas compras do governo, o livro é lançado na esteira de outros sucessos do gênero que comprovam que extensos romances recheados de personagens, cenários reais e imaginários e fatos históricos têm seu público. Eduardo Sphor é um dos melhores exemplos. Segundo sua editora, já foram vendidos quase 200 mil exemplares de A Batalha do Apocalipse, um calhamaço de 586 páginas.

Pauline não conhece Sphor nem o que está sendo produzido no Brasil nessa área. Na verdade, não gosta de dar rótulos a sua obra e acredita que boas histórias podem interessar a pessoas de todas as idade e preferências literárias. Ela conta que tem leitores de 10 e de 80 anos.

Pauline nasceu no Rio de Janeiro, cresceu e foi alfabetizada na França, voltou ao Brasil no começo da adolescência e foi embora de novo depois da faculdade de jornalismo. A peregrinação talvez se deva ao longo processo de formação e identificação que a filha de uma alagoana e de um francês tem de passar.

Essa confusão linguística é vista também em sua obra. Quando estava aqui, e já alimentando o desejo de escrever, percebeu que seu português não era bom o suficiente e sabia que só seria lida se escrevesse na língua local. Começou então a ler Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Machado de Assis. Travou ainda mais. Seus primeiros livros só foram escritos quando ela já estava de volta a Paris - todos feitos em português e publicados pela Companhia das Letras.

A série fantástica lançada agora, no entanto, lhe apareceu direto em francês e ela ajudou Dorothée de Bruchard na tradução. "Essa relação com a língua é curiosa. Em que idioma escrever? O que eu sou? Consigo escrever tão bem numa língua quanto na outra? Esse é um processo fundamental em minha vida", comenta. "Hoje, poder escrever em francês e ser traduzida é como um ciclo que se fecha."

Pauline escreve o dia inteiro a partir de uma casinha em seu jardim, em Toulouse, e trabalha um pouco com tradução para o cinema - fez as versões de Cidade de Deus, Carandiru e Central do Brasil. Hoje, diz que já consegue quase viver de sua literatura graças à série dos gêmeos.

Da França, os três personagens vistos naquela manhã foram transportados para a Floresta de Salicanda. O século 22 já tinha ficado para trás quando a história começa. Nenhuma cidade tinha sobrevivido à catástrofe causada pela sociedade tecnicizada. Algumas pessoas sim.

Jad é um garoto fraco que sofre com enxaquecas e pesadelos. Claris é uma menina que quer viver uma grande aventura, mas acha que este é um privilégio de meninos. Criados por uma empregada e um tutor, já que o pai se recolheu no alto de sua biblioteca em formato de farol quando a mulher desapareceu misteriosamente, os irmãos dividem sonhos, pensamentos e sensações. Há uma livraria chamada Aleph e o livreiro Borges. Há referências a Isabel Allende, a Goya e a Picasso. O cenário é um castelo. Há chuva incessante, animais que se comunicam com humanos, elfos, profecias e mundos paralelos. Quase todos têm dons parapsíquicos e uma missão no Jogo dos Mil Caminhos.

"A fantasia é um contrato com o leitor em que o escritor diz: vou escrever uma história que não existe, mas proponho que você entre nesse universo. Ele entra, mas exige coerência. Se fizer sentido, ele topa todas as loucuras." Para ela, talvez o universo de Garcia Márquez não seja mais real do que o de Harry Potter. "É tudo ficção. Definir gênero e idade é coisa do mercado. O escritor e o leitor não precisam dessa vinculação e todo mundo precisa de um pouco de fantasia."

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