Fanfarronada de gênio:Maradona por Kusturica

Almas gêmeas, o jogador e o diretor identificam-se no excesso e fazem do documentário um panfleto político

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Deus argentino. Super Diego é honesto consigo mesmo e com seu público        

 

 

Numa cena de Maradona por Kusturica, o grande Diego diz que recebeu convites para ser homenageado nos EUA e em Cuba. O ano era 2008, ainda na era George W. Bush. "Aos EUA, não vou", anuncia o atual treinador da seleção argentina. "Só a Cuba." Para mostrar sua devoção à causa, ele exibe as tatuagens. A cara de Fidel Castro na perna, a de Che Guevara no braço e a inscrição "Argentina" no peito. Maradona não é nem um pouco razoável. É excessivo. Logo no começo, o próprio diretor Emir Kusturica empunha a guitarra num show de sua banda em Buenos Aires. O apresentador diz que ele é o Maradona do cinema. O público vibra.

Há um culto tão forte a Maradona na Argentina que deve horrorizar a um bom servo do Senhor, como Kaká. Idólatra - Maradona é comparado a Deus. Existe em Buenos Aires uma igreja maradonense, na qual os "devotos"- todos tietes do ídolo - se batizam e casam e as crianças aprendem a rezar a Maradona "que estás en el cielo". Considerando-se a dupla natureza, do biografado e a do autor da cinebiografia, Maradona por Kusturica é tudo menos um documentário objetivo. O filme está sendo lançado em DVD pela Europa em plena Copa do Mundo. Tudo o que o brasileiro não quer é ver a Argentina vitoriosa na África do Sul. Uma eventual final entre Brasil e Argentina seria gloriosa - desde que o time de Dunga arrasasse o adversário.

A distribuidora Europa revela senso de oportunidade ou se equivoca? Quem quer ver, agora, um documentário sobre Maradona? O cinéfilo. Pelé pode ser eterno, mas no cinema não deu sorte. Até quando foi dirigido pelo grande John Huston, o filme - Fuga para a Vitória - revelou-se o pior do diretor. Maradona ganhou uma celebração à altura de sua persona. Kusturica o compara a Dionísio. O deus grego introduz uma ordem - dos prazeres, dos sentidos - no caos do mundo. O diretor e o jogador são almas gêmeas. O filme de Maradona é um panfleto político - pró-Hugo Chávez e Evo Morales, contra Bush, Margaret Thatcher, Ronald Reagan e o príncipe Charles. Kusturica recorre até a animações, sempre para mostrar Super Diego driblando os poderosos. Ao fazê-lo, diz que está expressando na tela o senso comum - e dando voz aos que não têm oportunidade de manifestar essas verdades básicas.

O filme não esconde a velha rixa de Diego Armando com Edson Arantes do Nascimento. Maradona conta que já havia jurado para suas filhas que nunca mais falaria mal de Pelé, mas admite que é mais forte do que ele. O fanfarrão é honesto, consigo mesmo e com seu público. Encara a dependência da cocaína, mas aproveita para provocar. Se lamenta o fato, é porque tem consciência de que, sem a droga, teria sido um jogador muito maior - Pelé não seria nem o segundo, como ele acha. O Maradona que, na África do Sul, já elogiou a seleção de Dunga cobre de elogios um jogador brasileiro, um certo Ronaldo, não o Fenômeno, mas o gaúcho Ronaldinho.

Kusturica assume que Maradona é ele. Para demonstrá-lo, busca paralelos entre seus filmes e a vida do jogador. Em especial, cita Gato Branco Gato Negro para dizer que Maradona foi sempre seu pior inimigo, mas sobreviveu para contar a própria história e ser incensado como Deus vivo. Deus, aquele Senhor, também foi contestado por José Saramago, que morreu na semana passada. Maradona é um grande personagem, maior que a vida. Diante de seus excessos, o cinéfilo, mais que o boleiro, se lembrará da máxima trágica - os deuses enlouquecem primeiro aqueles a quem querem destruir. Louco ou gênio, Maradona tem sido poupado. E ainda ganhou esse filmaço.

 

MARADONA

Direção: Emir Kusturica.

Gênero: Documentário (Espanha-França/ 2008, 90 minutos).

Distribuidora: Europa Filmes. Só para locação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.