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Humberto Werneck
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Famoso quem

Nada para desinflar nosso ego, reduzindo-o às justas proporções, como ser confundido com alguém mais importante. Eu nem me achava essas coisas quando, numa livraria em Manaus, fui recebido com honra e pompa, na suposição de que fosse o Nelson Werneck Sodré. Constrangimento não só meu, forçado a esclarecer ao livreiro e convidados que não era o conhecido homem de letras e de armas, até porque esse parente distante, general e marxista, 34 anos mais velho que eu, desobjetivara (diria Vinicius de Moraes) quase uma década antes.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h12

Menos desastroso, mas igualmente pedagógico, é ver o nosso nome estropiado por pena alheia. Nas sucessivas redações onde envelheci, cansei de receber envelopes que até acertavam na grafia do meu nome. Já nem falo do sobrenome materno, Azeredo, que a humanidade parece decidida a converter em Azevedo. Vou acabar aderindo. No Jornal da República, talvez porque o capo fosse o Mino Carta, mais de um remetente me italianou: Umberto Vernecchi. Na primeira de minhas encarnações na Veja, o diretor da redação deve ter achado insuficiente o meu prenome, pois na sua Carta ao Leitor virei Luís Humberto.

Quem manda não ser celebridade? Ainda que não tenha pretensão a tanto, vira e mexe me confundem com o Caco Barcelos (sinal de que ainda não devo estar um caco); e outro dia, na padoca, fui abordado por alguém que, sem bola de cristal, julgou ver em mim o Oscar Quiroga. Na próxima vez, vou assumir a suposta (e honrosa) semelhança física e oferecer pitacos astrológicos de aquariano com ascendente em Aquário.

Voltemos às grafias erradas de meu nome (o qual, justiça seja feita, vi corretamente escrito numa lápide de cemitério, mas isso já contei).

Conformado, passei a colecionar equívocos onomásticos, colando-os numa folha grande que logo ficou pequena para tanta barbaridade. Era até divertido acompanhar a genealogia dos absurdos - o inescapável "Nelson Werneck Sodré", por exemplo, que acabou gerando, vá saber por quê, "Raimundo Werneck Sodré". Meu amigo Fernando Velloso, artista plástico, levou o cartaz de presente, disposto a fazer dele uma obra de arte, quem sabe um Memorial do Jornalista Desconhecido.

Já me conformei também em ver os títulos de meus livros ganharem alternativas na boca ou pena de quem a eles tem a amabilidade de se referir. Entrevistado na TV no final de 1992, o querido José Mindlin generosamente arrolou Os Desafios da Rapaziada entre os lançamentos do ano em que publiquei O Desatino da Rapaziada. Alguém mais usou "destinos". Chegaremos, meu Deus, a "intestinos"?

Melhor sorte não tem tido O Santo Sujo, minha biografia de Jayme Ovalle, pois, ecoando o clássico de Ruy Castro sobre Nelson Rodrigues, já foi O Anjo Sujo e O Santo Pornográfico. O Espalhador de Passarinhos volta e meia é mencionado como O Empalhador..., autorizando pensar que me apropriei do título de Mário de Andrade. Não será surpresa se essa coletânea de crônicas for um dia apresentada como O Espalhador no Campo de Centeio.

Meus dissabores nesse terreno ainda são pequenos se comparados aos de um colega cujo nome raramente se vê grafado conforme o registro civil. De nada adiantou ao contista e romancista Jaime Prado Gouvêa ter obra premiada e louvada pela crítica, pois já foi elogiado como Jaime Prado Corrêa e Jaime Prado Brandão. Com frequência, lascam "do" após o prenome, e Gouvêa, décadas a fio, tem sido "Gouveia", "Golveia", "Golvea". Um de seus editores, num convite de lançamento, escreveu "Govêa". O maior jornal de Belo Horizonte conseguiu errar a grafia de todos os títulos de seus livros. E um crítico, dizendo-se impressionado com a conversa que tivera com o escritor mineiro, a ele se referiu como "um certo Daniel". Dias atrás, correspondência da Associação Brasileira dos Portadores de Hepatite acertou-lhe o fígado com um "Gouvea".

Nosso consolo, meu e dele, é o Graciliano Ramos, que em visita a São Paulo, em 1937, apareceu na imprensa local como "o escritor carioca Gratuliano de Brito". E olha que o romancista alagoano já era autor de Caetés, São Bernardo e Angústia. Se foi assim com o grande Graça, imagine a que estão expostos o Jaime Prado Gouvêa e, vários degraus abaixo, um tal de Alberto Verneque, que não é o tal.

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