Tamir Kalifa/The Washington Post
Tamir Kalifa/The Washington Post

Famoso apresentador de TV, Dan Rather criou monólogo off-Broadway e, agora, é gravado

Âncora do CBS Evening News entre 1981 a 2005, ele fez sua estreia no circuito teatral aos 88 anos

Peter Marks / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2020 | 05h00

Pouco antes de a pandemia ter paralisado o entretenimento ao vivo e presencial, Dan Rather fez sua estreia no circuito teatral fora da Broadway. Do alto de seus 88 anos, ele aguardou na coxia do teatro Minetta Lane com a diretora, Kimberly Senior, ouvindo o burburinho do público e sentindo o nervosismo que antecede sua entrada em cena. “Lembro de apertar a mão dela e dizer: ‘Tudo isso é novidade para mim’.”

O apresentador é uma figura de feitos titânicos no jornalismo televisivo. Sucessor do reverenciado Walter Cronkite, Rather é um homem que falou com milhões de espectadores todas as noites da cadeira de âncora do CBS Evening News, que comandou de 1981 a 2005. Devemos acreditar que um intrépido correspondente que gravava reportagens no Vietnã e encarou o presidente Richard Nixon durante o escândalo do Watergate sente borboletas no estômago antes de encarar uma plateia teatral de 390 assentos?

“A sensação é de andar sozinho na corda bamba", explicou Rather a respeito do espetáculo solo estrelado por ele que estreou em Nova York em fevereiro, Dan Rather: Stories of a Lifetime. “É a primeira vez que faço algo do tipo, o que é bem assustador.”

O fato de Rather encarar essa corda bamba a essa altura da vida mostra certo apetite pelos holofotes, e um amor insaciável pela reportagem. Stories of a Lifetime, uma viagem de 80 minutos por uma carreira sem igual – e pela essência de Rather –, foi gravado pela Audible e foi lançado na terça-feira para assinantes como nova expansão da empresa de audiolivros e entretenimento sonoro para a esfera do teatro.

“Cresci perto de dois adultos que eram incríveis contadores de histórias”, disse Rather. “Minha avó materna, Page, que passou a vida inteira no sul do Texas, era uma grande contadora de casos. Era particularmente boa com as histórias bíblicas. E o meu pai, Irvin Rather, que não contava histórias com frequência, mas, quando contava, era excelente ao criar imagens com as palavras."

Esse dom de família ficou evidente no estilo de Rather na TV, especialmente os aforismos que ele criava nas noites de eleição para aprofundar o drama, como “Essa corrida está mais quente do que um Rolex comprado em Times Square”. Em Stories of a Lifetime, ele fala da mistura de obstinação e informalidade que transformou em sua marca registrada e, em uma nota mais comovente, a respeito dos acontecimentos nos anos 1960 e 1970 que formaram a espinha dorsal de uma grande carreira. 

Os casos que ele conta – estava em Dallas no dia em que o presidente John Kennedy foi assassinado; conheceu Martin Luther King Jr. e fez amizade com Medgar Evers durante a cobertura do movimento pelos direitos civis; visitou um navio-hospital da marinha ancorado no Vietnã, cheio de pacientes que sofreram amputações – formam o núcleo envolvente de um espetáculo emocionante com a intensidade de quem esteve lá.

O espetáculo não menciona algumas das controvérsias mais tardias de sua carreira, como o mistério do incidente da “frequência de Kenneth” e as circunstâncias de sua partida após uma investigação do serviço militar do presidente George W. Bush que deu errado.

Mas foi o poder dos acontecimentos atuais (e não dos eventos históricos) que levou Rather ao palco – para dar vazão a sua reação horrorizada diante dos ataques à mídia feitos pelo governo Trump. A esperança de Rather é que, ao humanizar a perspectiva, ele ajude a consolidar a fé em torno das proteções à liberdade de expressão da primeira emenda constitucional.

“Uma imprensa combativa é o coração de uma democracia saudável”, declara. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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