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Lúcia Guimarães
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Famosas e perigosas

"Vejo que você já foi se informar." Há mais de 20 anos, conheço a pitada de sarcasmo no tom do meu clínico geral. Com um nome alemão comprido e uma paciência curta para achismos, ele é um médico pré-digital. Não manda e-mail e não gosta do mundo em que os pacientes se informam e se apavoram em qualquer website fuleiro.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2014 | 02h09

Entrava na terceira semana de sintomas intensos de algum vírus, decidi ler on-line, telefonei para o consultório e propus o diagnóstico. Ele concordou, sublinhando o 'possível': "Sim, é perfeitamente possível que você tenha coqueluche. Mas não adianta confirmar porque é tarde demais para tratar e o período contagioso já passou. E sim, você pode passar dois meses tossindo". Não o descreveria como uma personalidade ensolarada. Mas otimistas me deixam um pouco nervosa.

O autodiagnóstico, mais tarde desmentido por um exame, fora inspirado pelo relato de uma jovem e talentosa jornalista americana. Ela narrou seus meses de sofrimento com a coqueluche ou pertussis numa reportagem em que agradecia à atriz e ex-coelhinha da Playboy Jenny McCarthy pela doença. Jenny McCarthy, hoje uma das participantes do programa feminino The View é uma protegida de Oprah Winfrey que há anos faz campanha contra vacinas. Ela tem um filho diagnosticado como autista e se convenceu: o menino é vítima de vacinação infantil. O estudo original que levantou a suspeita da ligação entre vacinas e autismo já foi desacreditado e os pediatras repetem a informação como um disco arranhado. Mas não adianta. Graças a esta personagem dos nossos tempos, a mãe-celebridade-charlatã, sabe-se lá quantos pais preferem expor seus bebês ao risco de morte por contrair vírus como o da coqueluche.

Um dos best-sellers da Amazon na última semana é um livro tão irresponsável que merece uma ação de classe por danos à saúde. O processo não iria a lugar nenhum porque a emenda constitucional sobre a liberdade de expressão protege o direito de encher a cabeça dos pais mal informados de instruções que podem prejudicar seus filhos.

Espero que ao menos o tribunal da opinião pública julgue a atriz Alicia Silverstone, responsável pelo best-seller cujo título entrega a onipotência da autora: A Mãe Gentil: Um Guia Simples para a Fertilidade Superalimentada, Uma Gravidez Radiante, Um Doce Nascimento, e Um Começo Mais Belo e Saudável. A estrela de As Patricinhas de Beverly Hills também se investe de autoridade médica e aconselha as mães a não vacinar bebês porque eles nunca mais "serão os mesmos". A Dra. Silverstone avisa às mulheres grávidas: se ingerirem qualquer laticínio, vão criar detritos tóxicos no útero, prejudicando o feto; colocar o bebê para dormir num berço é uma forma de negligência grave (a alternativa correta é toda a família dormir na mesma cama); fraldas são o produto de "pseudociência", uma conspiração capitalista.

Se o leitor duvida que este tipo de conselho emplaca, pode dar uma passada em Park Slope, no Brooklyn, o epicentro dos excessos New Age e talvez pegue em flagrante uma seguidora da Dra. Silverstone segurando o seu bebê no ar, na beira da calçada, para que ele possa defecar diretamente no chão, protegido da fralda corporativa. E, se ainda tiver estômago, vai ter uma medida do nível de insanidade assistindo ao vídeo que a atriz postou em 2012, mastigando a comida de seu filho e passando de sua boca para a do menino.

Uma colega atriz na promoção de sandices maternais é Mayim Bialik, há anos uma autora de sucesso e ainda mais difícil de digerir porque ela tem Ph.D. em neurociência (e faz o papel de cientista na série The Big Bang Theory). Bialik promove o attachment parenting, um sarapatel de noções de intimidade com os filhos que faria nossas avós morrerem de rir e se recusa a permitir que seus filhos tomem antibiótico.

A praga de atrizes pontificando sobre a nossa vida é produto dos blogs, da indústria da celebridade e da facilidade com que a Internet espalha conspirações e desafia a hierarquia do conhecimento científico. A mais ridicularizada de todas é uma excelente atriz, educada em boas escolas e ganhadora de um Oscar antes dos 30 anos. Gwyneth Paltrow hoje parece dedicar mais tempo ao seu website Goop do que ao cinema. Ela se considera uma autoridade em criar filhos, nutrição, moda, estilo de vida e o que quer que lhe ocorra num momento de tédio. Ela se preocupa muito com o nosso bem-estar. Não quer, por exemplo, que sejamos vítimas do concierge de um hotel parisiense que possa indicar o restaurante errado porque recebe gorjeta do proprietário. O narcisismo de Paltrow é tão caricato que já inspirou artigos de defesa da atriz contra seus críticos.

A mãe-celebridade-charlatã não nos insulta apenas porque se considera acima da ciência. Essas mulheres bombardeiam suas seguidoras com expectativas impossíveis para quem cria filhos sem um exército de empregados. Por trás dos sermões insuportáveis está a sugestão de que, se uma mulher não tem acesso aos recursos milionários, não pode criar filhos ajustados e com saúde. Elas desprezam as leitoras que fazem sua fortuna.

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