Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Família tenta salvar legado do criador de ‘Jerônimo’

RIO - Autor da lendária radionovela dos anos 50 e 60 Jerônimo, O Herói do Sertão, Moysés Weltman (1932-1985) – radialista, novelista, roteirista, quadrinista – deixou um rico acervo, organizado por décadas por sua mulher e agora defendido por seus três filhos. Eles buscam patrocínio para recuperar fitas de áudio e vídeo, quadrinhos e material impresso, em sua maior parte sob a guarda do Arquivo Nacional, no Rio, e digitalizar o material, para poder exibi-lo integral e gratuitamente na internet.

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2013 | 19h23

A família acredita que uma declaração dada pela presidente Dilma Rousseff no início do mês, na cerimônia de assinatura de decreto de adaptação das rádios AM para FM, possa ajudá-la na empreitada. "Eu lembro que no período das 18 horas, em Belo Horizonte, a gente escutava na Rádio Nacional Jerônimo, O Herói do Sertão. Era interessante, um herói local, coisa rara no Brasil", disse Dilma na ocasião.

As aventuras do paladino da justiça pelos interiores de um País ainda muito rural, um homem misterioso que lutava contra poderosos coronéis em defesa dos oprimidos, sempre na companhia de seu ajudante Moleque Saci e de sua eterna noiva Aninha, foram ao ar na Rádio Nacional de 1953 a 1967. Era sucesso absoluto não só entre as crianças e adolescentes, mas também entre o público adulto.

A narração era de Mário Lago e a transmissão era de segunda a sexta, pontualmente às 18h35. O valente Jerônimo tinha a voz do ator Milton Rangel, dublador de astros de Hollywood como Henry Fonda, Gregory Peck e Gene Kelly, e eletrizava a audiência montado em seu cavalo Príncipe.

Da radionovela, que teve 3.276 capítulos e foi influenciada pelos westerns norte-americanos, surgiram, três anos depois, os quadrinhos, também escritos por Weltman e com desenhos de Edmundo Rodrigues. Foram feitas também duas versões para a TV: uma em 1972, produzida pela TV Tupi, e outra em 1984, do SBT.

Se hoje o justiceiro está aposentado, suas peripécias vivem na memória de quem era jovem nas décadas de 50 e 60. Na internet, gibis do herói, que foram produzidos por dez anos, são vendidos como raridades.

O projeto de restauração e digitalização do acervo Moysés Weltman já foi aprovado na Lei Rouanet no valor de R$ 729.700. Inclui a telecinagem (passagem para a mídia digital) de novelas, programas de rádio, seriados e 31 filmes, curtas e longas-metragens em acetato de 16mm e 35mm.

Está prevista ainda a recuperação de scripts, revistas, fotonovelas, letras de músicas infantis, livros, fotos e documentos. São 924 fitas magnéticas no Arquivo Nacional, 218 de roteiros. Tudo isso foi amealhado por toda a vida pela mulher de Weltman na produtora dele.

"Alguns filmes estão começando a avinagrar e parte das fitas está com fungos. É um acervo muito importante para a história da comunicação no Brasil, do rádio, da TV, do mercado editorial, que já tem o selo do Conselho Nacional de Arquivos como um acervo de interesse público. Nossa expectativa é chamar a atenção de quem se lembra do Jerônimo, que foi o primeiro grande herói brasileiro", diz o filho Fernando Lattman-Weltman.

"Os textos poderão ser reencenados ou adaptados para o teatro, por exemplo. A Dilma falar do Jerônimo foi uma surpresa, mas isso é muito comum. Quem era criança nos anos 50 e 60 ouvia com a família na sala, como hoje se vê TV."

Weltman é autor de duas novelas dos primórdios da TV Globo, Rosinha do Sobrado (a primeira novela das 19 horas, exibida em 1965, ano da fundação da emissora) e Padre Tião (de 1966) Fez também outras novelas de rádio e um seriado em 13 episódios sobre momentos importantes da história do Brasil.

Além do que está no Arquivo Nacional, há material na Cinemateca Brasileira, na TV Globo e na TV Cultura. Os filhos querem reunir tudo e criar um site sobre Moysés Weltman com todo o acervo catalogado, biografia, imagens e depoimentos sobre ele.

Pioneiro do rádio, da TV e dos quadrinhos, Weltman teve uma carreira de 40 anos iniciada na Rádio Nacional. Depois passaria pela Mayrink Veiga, Tupi e Clube do Brasil. Chegou à TV pela Tupi, Canal 6, Canal 13, Continental e participou da fundação de três emissoras: Globo, TVS e Manchete.

Ele colaborou com programas de grande audiência, como o Grande Teatro e o Teatrinho Troll, na Tupi. Primeira produção dramatúrgica da Globo, a minissérie Rua da Matriz, da qual era um dos autores, foi ao ar em seu primeiro dia de transmissão, 26 de abril de 1965.

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