Família pede ajuda para contar sua história

Arquivo Nacional mantém seu acervo, mas fotos, músicas e textos ainda estão perdidos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2011 | 00h00

Mário Lago não era exatamente um sujeito organizado, que se preocupasse com o ordenamento de um arquivo. Em quase 70 anos de vida artística (estreou como autor teatral, com a revista Flores à Cunha, no mesmo ano em que se formou advogado, 1933), sua produção sempre foi alta. Guardado no Arquivo Nacional, o acervo de fotos, livros, textos e até bilhetinhos trocados com amigos como Ataulfo Alves, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Luiz Carlos Prestes, é bem rico. Mas muita coisa se perdeu.

Agora, dada a amplitude do projeto do centenário, os quatro filhos apelam à boa vontade dos que tiverem contribuições a dar. "Este mês, a Globo vai lançar uma campanha institucional nesse sentido. Em cada peça (foram 31, segundo contagem da biografia Mário Lago, Boemia e Política, de Mônica Velloso, de 1997), havia músicas, só que não há registro", exemplifica Mário Lago Filho, a quem o pai só tratava de "xará".

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"Fora a desorganização, a casa dele foi invadida várias vezes pela polícia, e levaram coisas", completa a filha Graça Lago. Isso se deu porque o pai, ainda que nunca tenha se filiado, mantinha colaboração estreita com o Partido Comunista. Foi preso seguidas vezes, primeiro em 1932, na faculdade, e em 41, 48, 64. Estava sempre preparado para novos acréscimos em seu prontuário, tanto que mantinha uma maleta com escova de dente e pasta, pente, sabonete...

 

Desde rapaz, engajava-se por uma questão humanitária, queria ver a vida do povo melhorar. Descrevia-se como "vocacionalmente rebelde". Sonhava com um Brasil sem exploradores e explorados. "Eu não queria nascer, tiveram que me arrancar a ferros. Até parece que estava adivinhando a merda de mundo que ia encontrar. Pois resolvi entrar na briga pra acabar com essa merda!", sua biografia o cita.

O escritor Sérgio Cabral, que compartilhou com ele anos de paixão pela boemia, música popular e militância, lembra de uma vez, no início da década de 70, em que foram de Fusca até o sítio do cantor Silvio Caldas, em Atibaia (SP), pedir-lhe ajuda.

"Fomos encarregados de chamá-lo para participar de um show que levantaria recursos para o Partido, mas não deu certo, ele não gostava disso", lembra. "Mário nunca saiu da ativa. E é autor de um dos versos mais bonitos da música brasileira, "Perdão foi feito pra gente pedir" (de Atire a Primeira Pedra, parceria com Ataulfo)."

Nos dois musicais que Cabral escreveu com Rosa Maria Araújo, ambos em cartaz no Rio, Lago está presente. Em Sassaricando, Aurora (que fez com Roberto Roberti) é dos números mais empolgantes; em É Com Esse Que Eu Vou, entraram Atire... e Ai, Que Saudade da Amélia (também com Ataulfo, outro momento de coro no teatro). Amélia virou até verbete de dicionário, sinônimo de abnegação feminina.

Lançadas entre 41 e 44, são cantadas nos blocos e nas noites da Lapa por gente cujos pais nem eram nascidos então. São das chamadas "músicas eternas". Vêm de um sujeito que é lembrado pelo público como um ancião, mas que, para os mais próximos, "jamais ficou velho".

Para este ano, planeja-se o lançamento de dois CDs: Folias do Lago será de sambas e marchas de carnaval tocadas pelo Cordão do Boitatá; outro terá letras e poemas nunca musicados, já entregues a compositores como Lenine, Pedro Luís e Frejat.

O documentário deve ficar a cargo de Marco Abujamra, o mesmo do filme sobre Jards Macalé; os livros de reminiscências que escreveu, todos fora de catálogo, virariam um volume único; os shows seriam no Rio e em São Paulo, na rede Sesc. "Pode até não ser como o idealizado, mas tudo vai sair", promete o "xará".

Dureza. Lago nunca juntou dinheiro. Sustentou a prole de cinco (um morreu) e "um monte de comunistas". Teve um imóvel no início do casamento com Zeli, mas terminou a vida num apartamento alugado no Posto 6, no fim de Copacabana. Viveu ali por 30 anos, entre filhos, netos e livros que se espalhavam até o banheiro. Não tinha mesmo vocação para enriquecer com a obra: os filhos contam que ganham R$ 2 mil por trimestre com direitos autorais; no carnaval, chega-se a R$ 10 mil.

Nos anos de dureza, fez traduções, dublagens, textos para enciclopédias. Isso mais intensamente em meados de 64, quando as músicas já não encontravam tanto sucesso, o rádio decaía, a TV ainda o capturava. Alto, bem apanhado e com boa voz, fez uma novela por ano na Globo nos anos 70, participou de especiais, ganhou prêmios de interpretação. Fez tudo o que quis, como resumiu: "Bem ou mal, mas só fiz aquilo que me despertava paixão. A vida tem que ser vivida lá no fundo."

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