Família macabra

O musical A Família Addams, que estreia na sexta, aposta no humor culto e bizarro

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

29 Fevereiro 2012 | 03h10

O cartunista Charles Addams (1912-1988) era um sujeito peculiar, pois preferia um tipo de humor mais próximo do macabro, do gótico. A ponto de, nos anos 1930, ter decorado sua casa com uma guilhotina e um esqueleto. Por trás dessa esquisitice, no entanto, escondia-se um homem preocupado com a união familiar. E o fruto dessa mistura resultou em alguns dos principais personagens de quadrinhos da história, a Família Addams. Criados, em 1932, para a revista The New Yorker, os desenhos foram transformados em série de TV nos anos 60, depois em desenho animado, e inspiraram dois filmes dirigidos por Barry Sonnenfeld até se transformarem em um musical. E a versão brasileira de A Família Addams estreia nesta sexta-feira, no Teatro Abril.

Produzido pela Time For Fun, o espetáculo traz Marisa Orth e Daniel Boaventura nos papéis principais, o apaixonado casal Mortícia e Gomez Addams, cuja filosofia de vida resume-se a "quanto pior, melhor". "Eles vivem como qualquer família, apenas têm um gosto pelo bizarro que chama atenção", conta Boaventura, que soma agora 11 musicais em uma bem sucedida carreira. "E esse é o grande charme da história."

De fato, a partir do macabro, Charles Addams brincou com a "tradicional família americana" e tratou de temas sociais delicados mas sempre presentes, como a diferença - afinal, o que é normal para uma família tradicional, certamente não é para os Addams e vice-versa. Basta observar uma fala de Mortícia quando interpela a filha Wandinha (Laura Lobo): "O que é normal para uma aranha é uma calamidade para a mosca presa na teia. O que então é normal?"

Com personagens tão carismáticos, que consideram dias chuvosos ideais para um passeio, o musical dá um passo adiante na evolução da família. Isso quer dizer que Wandinha cresceu, tornou-se uma adolescente e agora está namorando um rapaz muito certinho, Lucas (Beto Sargentelli), cujos pais, Alice (Paula Capovilla, que interpretou Evita recentemente) e Mal (Wellington Nogueira, do Doutores da Alegria), são o ponto culminante da caretice.

Assim, duas famílias tão distintas vão se conhecer em um almoço de apresentação na casa dos Addams, onde vivem também Tio Fester (Claudio Galvan), o caçula Feioso (papel alternado por Nicholas Torres e Gustavo Daneluz) e a estranha Vovó (Iná de Carvalho), além do mordomo que apenas murmura, Tropeço (Rogério Guedes).

O encontro entre pessoas tão diferentes resulta em um humor amalucado, ao estilo dos irmãos Marx , no qual conceitos tão definidos como certo e errado, belo e feio, tornam-se duvidosos. "O musical brinca com preconceitos e traz uma mensagem mais conciliadora", observa o americano Steve Bebout, diretor associado que passou as últimas semanas em São Paulo observando o trabalho da produção brasileira. "A montagem aqui é semelhante à da Broadway, mas, claro, sempre há espaço para algumas brincadeiras locais."

E elas, de fato, se espalham pela montagem, reforçando o humor. Em um determinado momento, por exemplo, Gomez e Mortícia se lembram da última peça a que assistiram, Morte e Vida Severina. "Rimos muito", diverte-se Mortícia. Em outro momento, Vovó, que é uma velhinha bem descolada, diz uma frase da moda: "Ah, se eu te pego..."

Vovó, aliás, é tão amalucada que Gomez e Mortícia não sabem de qual dos dois ela é mãe. "É esse tipo de humor - inteligente, contundente, malandro - que faltava aos musicais montados aqui no Brasil", acredita Daniel Boaventura que, aos 42 anos, oferece mais um grande personagem: seu Gomez esbanja uma malícia típica latina, especialmente ao declarar o eterno amor pela mulher. Já Mortícia representa um desafio para Marisa Orth. "Sou uma pessoa muito estabanada, uso muito os braços para falar, mas, como Mortícia, tenho de baixar o tom, segurar as mãos e usar muito a expressão do rosto."

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