Família de doidos ganha tratamento que é só estilo

Estreia de Chan-wook em Hollywood é desastrosa, para dizer-se o mínimo

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2013 | 02h11

Park Chan-wook ficou famoso com sua trilogia da vingança. O primeiro episódio, Oldboy, era muito cru - literalmente, o herói comia um lagarto a dentadas -, e o segundo, Lady Vengeance, muito estilizado. O restante do diretor sul-coreano tem ido de mal a pior. Sua estreia em Hollywood é desastrosa, para dizer-se o mínimo. Chan-wook carrega no estilo, mas a história e os personagens não convencem.

Chan-wook representa uma nova geração atraída pelo cinema de gêneros. Na distante Dinamarca, Nicolas Winding Fern também surpreendeu com Drive, mas seu segundo opus com Ryan Gosling, que competiu em Cannes, é um desastre. Só estilo não dá. Park Chan-wook bebe na fonte de Alfred Hitchcock e faz o seu A Sombra de Uma Dúvida. Há críticos que consideram o filme de 1943 a obra-prima do mestre do suspense. Ele próprio dizia que era seu filme para satisfazer os que lhe cobravam verossimilhança.

Teresa Wright conhece tio Charlie e começa a suspeitar que Joseph Cotten, que faz o papel, é um assassino. Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton, faz garota estranha (muito). De cara perde o pai e, no enterro, chega esse tio misterioso que seduz sua mãe, Nicole Kidman. O tio, o espectador logo percebe, é louco de pedra, mas, como Park Chan-wook não é Hitchcock, a história do filme não é a descoberta que Mia faz do fato. Chan-wook deve ter achado que seria muito soft para seus admiradores. O filme começa pelo fim e Mia também não bate bem. A Sombra de Uma Dúvida é filtrado por Psicose - Mia é uma Norman Bates de saias, ou naquele estilo de sapato que ganha em todo aniversário.

Os sapatos de homem são um dos inúmeros símbolos que o diretor utiliza para incrementar seu relato, mas é tudo - tudo mesmo - déjà vu. E este é o grande problema de Stoker. No Brasil, o filme chama-se Segredos de Sangue, no plural. Se fosse no singular, Segredo de Sangue, o título seria o mesmo do thriller de Jonathan Darby com Jessica Lange como a mãe possessiva que tenta eliminar a nora (Gwyneth Paltrow) para evitar que ela lhe roube o seu 'menino (o filho marmanjo).

No arsenal de truques - e reviravoltas - de Chan-wook, o elenco joga um papel decisivo. Mia Wasikowska ficou marcada por sua recriação da Alice de Lewis Carroll, mas, pensando bem, a Alice de Tim Burton pouco tinha a ver com a do escritor, esculpindo uma persona lunática da qual será difícil que a atriz se liberte. Nicole Kidman é o que se pode chamar de atriz cult, e este ano integrou o júri de Cannes, presidido por Steven Spielberg. O problema de Nicole é que, após uma fase gloriosa - com Stanley Kubrick, Gus Van Sant, Baz Luhrmann, Lars Von Trier e Steven Daldry -, suas escolhas têm sido um fracasso após o outro. A gota d'água é o 'tio'. Bem antes que Matthew Goode mate a parente que ameaça revelar seu segredo, o espectador já percebeu que, com aquele risinho, o cara tinha de estar numa camisa de força.

CRÍTICA

JJJJ ÓTIMO

JJJJJ

RUIM

O COREANO PARK CHAN-WOOK FAZ

CINEMA DE

GÊNERO À BASE DE DÉJÀ VU

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