Família de Darcy pede providências

Casa que foi do antropólogo em Maricá ameaça ruir desde que cunhada cedeu residência em comodato à prefeitura

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

A Fundação Darcy Ribeiro, presidida por Paulo Ribeiro (sobrinho do antropólogo), deve exigir que a prefeitura de Maricá inicie reformas urgentes na casa de praia que foi do autor, no litoral fluminense. Segundo Ribeiro, a residência está cedida em comodato por cinco anos para o poder público municipal, mas face às más condições do local, pode iniciar um processo de retomada do imóvel - o contrato estaria sendo desrespeitado.

A situação de abandono da residência, projetada por Oscar Niemeyer, foi revelada pelo blog do escritor curitibano Toninho Vaz, conforme informou o Estado anteontem. Toninho, autor de O Bandido Que Sabia Latim, tem relação afetiva com a casa de Maricá - foi amigo de Darcy Ribeiro, e sua mulher, Naná Gama e Silva, foi assessora do antropólogo por cerca de oito anos. "Ele nos emprestava a casa para o grande período de férias de final de ano, Natal e réveillon.

"Conheci bem a casa, passei temporadas grandes durante pelo menos dois anos. O Darcy me contou que levou o Niemeyer até o terreno, que fica em frente do mar, e lhe pediu um "projetinho" que pudesse ser simples e eficiente ao mesmo tempo. O gênio colocou uma pedra no centro do terreno, sentou-se nela e ficou observando o traçado do vento. Sem muito pensar, decidiu construir uma meia oca, em homenagem aos amigos índios de Darcy, onde o vento entra por um lado e sai pelo outro. Ou seja, a ventilação vinha pela biblioteca e terminava no último cômodo da outra extremidade, a cozinha. As portas internas funcionavam como eclusas, para diminuir o vento durante as noites. A piscina redonda fechava o círculo do desenho. A mesa da cozinha era externa, fixa, de concreto", contou o escritor.

Para a Fundação Darcy Ribeiro, a situação é constrangedora. "Antes de mais nada é preciso esclarecer que a casa de praia de Maricá, local cujo valor simbólico é imensurável, foi destinada no testamento, feito pelo próprio Darcy, à sua única cunhada Maria Jacy Ribeiro, casada com o seu irmão Mário Ribeiro", afirmou Paulo. "Há cerca de dois anos fomos contatados pela prefeitura de Maricá que nos apresentou o interesse de celebrar um contrato de comodato, com vigência de cinco anos, para que fosse instalado, no local, um centro cultural. À época, explicamos à prefeitura que o imóvel não era patrimônio da Fundação e sim de minha mãe, mas, aceitei, diante da proposta de instalação de um centro cultural, equipado de biblioteca e com programação de cursos livres, oficinas, etc.", informou Ribeiro.

Na ocasião, ele lembra, foi apresentado um levantamento, feito por engenheiros do Rio, com o custo de uma reforma para a casa. "Naquele período era da ordem de R$ 150 mil. Passado esse tempo sem que a prefeitura fizesse as intervenções no local, éramos alertados quanto à situação, cada vez mais crítica, da casa. Parte da cobertura da garagem já havia caído com as chuvas de abril, em 2010, e daí para frente, as coisas só pioraram."

Em janeiro, a fundação foi informada da decisão da prefeitura de desapropriar a casa para abrigar um centro de referência para o professor (batizado de Casa do Professor). "Importante agora, no processo de restauração, é observar fidelidade ao projeto inicial de Niemeyer", pondera Vaz.

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