Família Brasil Os bolsos do morto

O morto não é exatamente um amigo. Mais um conhecido, mas daqueles que você não pode deixar de ir ao velório. E lá está ele, estendido dentro do caixão forrado de cetim, de terno azul-marinho e gravata grená, esperando para ser enterrado.

O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h07

Se fosse um amigo, você ficaria em silêncio, compungido, lembrando o morto em vida e lamentando sua perda. Como é apenas um conhecido, você comenta com o homem ao seu lado - que também não parece ser íntimo do morto:

- Poderiam ter escolhido outra gravata...

- É. Essa está brava.

- Já pensou ele chegando lá com essa gravata?

- "Lá" onde?

- Não sei. Aonde a gente vai depois de morto. Aonde vai a nossa alma.

- Eu acho que a alma não vai de gravata.

- Será que não? E de fatiota?

- Também não.

- Bom. Pelo menos esse vexame ele não vai passar.

- Você é da família?

- Não. Apenas um conhecido.

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Você examina o morto. Engraçado: ele vai partir para a viagem mais importante, e mais distante, da sua vida, mas não precisa carregar nada. Identidade, passaporte, nada. Nem dinheiro, o que dirá cheques de viagem ou cartões de crédito. Nem carteira!

Você diz para o outro:

- A coisa mais triste de um defunto são os bolsos.

O outro estranha.

- Como assim?

- Os bolsos existem para ele carregar coisas. Coisas importantes, que definem a sua vida. CPF, licença para dirigir, bloco de notas, caneta, talão de cheques, remédio pra pressão...

- Pepsamar.

- Pepsamar, cartão perfurado da sena, recortes de artigos sobre a situação econômica, fio dental... Isso sem falar em coisas com importância apenas sentimental. Por exemplo: um desenho rabiscado por uma possível neta que parece, vagamente, um gato, e que ele achou genial e guardou. Entende?

- Sei...

- E aí está ele. Com os bolsos vazios. Despido da vida e de tudo que levava nos seus bolsos, e que o definia. O homem é o homem e o que ele leva nos bolsos. Poderiam ter deixado, sei lá, pelo menos um chaveiro.

- Você acha?

- Claro. As chaves da casa. As chaves do carro. Qualquer coisa pessoal, que pelo menos fizesse barulho num bolso da fatiota, pô!

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Você se dá conta de que está gritando. As pessoas se viram para reprová-lo. "Mais respeito", dizem as caras viradas. Você faz um gesto, pedindo perdão. Sou apenas um conhecido, desculpem. Mas continua, falando mais baixo:

- A morte é um assaltante. Nos mata e nos esvazia os bolsos.

- Sem piedade.

- Nenhuma.

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