"Fama" precisa ser melhor trabalhado

Será que se Chico Buarque participasse do Fama seria revelado como o grande astro da MPB que é hoje? É bem provável que não. Porque a conjuntura, o clima, o Brasil é outro. Naquele tempo em que o País parava para ver a banda passar, a TV - estalando de nova - tornou-se o grande canal para levar às massas o talento de uma trupe de jovens que tocava em bares e festivais estudantis. Nos anos 60, Manoel Carlos e Carlos Manga, ambos ainda militantes ativos do Departamento de Dramaturgia da Globo, abriram portas para artistas que até hoje representam o melhor da MPB: Elis Regina, Nara Leão, Chico, Gilberto Gil, Caetano, Gal, Milton Nascimento, Bethânia, João Gilberto, Edu Lobo, Rita Lee e muitos mais. Essa safra revelou talentos vocais, mas também renovou o gênero, ousou, quebrou paradigmas, transformou a música brasileira. Se esses artistas, em começo de carreira, se candidatassem ao Fama certamente seriam descartados por causa da, digamos, originalidade. A idéia de abrir as portas para a manifestação do talento nativo é muito boa. O problema é a formatação. A peneira dos realizadores do programa da Globo só retém clones de ídolos consagrados. Ao que parece, os concorrentes já chegam viciados nos timbres, trejeitos, entonações de cantores dos quais copiam o repertório. Pior ainda, são trabalhados pelos experts contratados pela produção para se esmerar em suas fantasias. Assim, há três edições, Fama provoca a sensação no telespectador de estar na platéia de um refinadíssimo karaokê. Os candidatos são esforçados simulacros de Gal, Elis, Marina, Ivete Sangalo, Gilberto Gil, Djavan, Beto Guedes, Paralamas do Sucesso, sertanejos, Tim Maia, etc. Porque, apesar de não parecer, o público percebe a intenção. Assim não o fosse, ele seria arrebatado incondicionalmente. A estréia da primeira edição do Fama (em abril de 2002) registrou 28 pontos de média (Grande São Paulo), a segunda, parou nos 16 e a atual não passou de 17. Não surpreende o fato dos dois vencedores das edições passadas voltarem para os braços do anonimato menos de um ano depois.

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