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Faltou a maquininha

Desde que adotou a maquininha de votar, o Brasil se transformou num modelo de pleitos organizados, inclusive para os Estados Unidos, onde, como se sabe, o processo eleitoral é confuso e demorado

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 03h00

De quatro em quatro anos, uma democracia demonstra ao resto do mundo como deve ser o processo eleitoral num regime presidencialista, para a admiração de todos. A eleição do presidente do grande país se dá rapidamente e sem maiores problemas, e o resultado raramente é contestado. Desde que adotou a maquininha de votar, o Brasil se transformou num modelo de pleitos organizados, inclusive para os Estados Unidos, onde, como se sabe, o processo eleitoral é confuso e demorado, e não existe nada parecido com a maquininha brasileira que dá o resultado da eleição no mesmo dia. Apesar de alguns descrentes ainda desconfiarem da sua precisão – e da pós-eleição muitas vezes acidentada, com repetidos impeachments desfazendo o seu trabalho – a maquininha tem sido um sucesso. E o Brasil um exemplo para o resto do mundo.

Por que o método americano é tão primitivo? Culpa, antes de mais nada, dos fundadores da pátria, que se reuniram para redigir a primeira constituição republicana da História e uma declaração dos direitos humanos que antecedeu a da Revolução Francesa, mas que se vivessem na França, na época, fariam parte da aristocracia, progressista, mas assustada com o povão, que chamavam de “a classe perigosa”. Os fundadores tinham consciência do que estavam inaugurando depois da independência da Inglaterra, mas também sabiam dos seus direitos como donos de terras e de escravos, e trataram de protegê-los. Uma das maneiras de proteger seus direitos senhoriais foi a invenção do colégio eleitoral, feito especificamente para barrar demagogos e aventureiros que pretendessem chegar ao poder, já prevendo o Trump e com medo do povão.

Os 13 Estados que formavam o novo país se juntaram para fazer os Estados Unidos, mas não descuidaram da sua própria independência. A liga federativa foi mais forte do que qualquer sentimento nacionalista e os Estados mantiveram sua autonomia até hoje. (A grande crise da federação foi a guerra civil entre Estados fiéis à união e Estados do sul, ou da confederação, cujas bandeiras rebeldes ainda tremulam.) O resultado de tudo isso é que o processo eleitoral lá deles fica cada vez mais complicado.

Enfim, faltou a maquininha. 

*É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR, AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

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