Falta pouco

Vejamos:

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2010 | 00h00

Uma inesperada separação litigiosa de amigos, com direito a boletins lacrimejantes, a cada três horas.

Um ataque de nervos alheio durante almoço de família.

Um tombo na minha câmera nova, provocada por nervosismo do cinegrafista.

Não preciso continuar a lista para me lembrar que é dezembro.

Fiquei tentada a perguntar à mulher do casal brigão porque os defeitos dele se tornaram insuportáveis nas vésperas do Natal. Ele já me parecia um pouco chato em agosto.

David McCandless, autor de A Informação É Bela, estudou as mudanças de status no Facebook e confirmou: as semanas que precedem os feriados de fim de ano registram o maior pique de separações.

Os americanos, que têm classificação para tudo, há muito cunharam o termo holiday blues.

"Esperamos que o Natal e outros feriados de inverno sejam um tempo feliz, o que aumenta o estresse quando eles não trazem alegria." Esta frase óbvia abre uma carta de recomendações para combater os holiday blues, do venerando National Institutes of Health, a principal agência de pesquisa de saúde nos Estados Unidos. Os sintomas do bode de fim de ano, dizem os pesquisadores, incluem estresse, fadiga, expectativas não realistas, consumismo exagerado. Uma loja de departamentos do Texas por pouco não foi cenário de uma tragédia, quando uma pequena multidão fora de controle disputava uma barganha - um pote de 9 dólares. Numa outra loja, um homem quase morreu esmagado, pisoteado for compradores que avançaram sobre TV"s em liquidação. Sim, já cunharam o termo para esta outra "aflição" também - shopping rage.

Por que a necessidade de reavaliar tudo e tomar providências, como se o calendário fosse uma bomba-relógio?

Como se trata de uma cultura puritana, a palavra "excesso" é repetida constantemente em reportagens sobre como evitar os efeitos da comilança de fim de ano. Vamos nos entupir de comida mas não devemos esquecer a culpa.

Nas últimas duas semanas do ano, são mais altas as chances de aeromoças ou comissários de bordo serem agredidos fisicamente por passageiros inebriados.

Pensei em colocar sacos de areia na porta de casa para me proteger porque, afinal, ainda faltam 4 dias para 2010 terminar.

Todo dezembro prometo que vou triunfar sobre a bruxa do período das festas. Tento evitar o metrô na hora do rush e ofereço o meu assento até para um adolescente, se ele for suficientemente mal-encarado.

Na fila do café, deixo os nervosos passarem na minha frente. Dou mais gorjetas para porteiros, zeladores, cabeleireiros, carteiros e entregadores do que seria sensato, com o meu orçamento. Dois homens têm me pedido esmola diariamente e a facilidade com que me encontram em pontos diferentes da vizinhança me faz pensar se eles andam com walkie talkies e um alerta o outro quando vou passar. Há alguns anos, uma suposta homeless que se beneficiou da minha intimidação dezembrina revelou-se minha vizinha, moradora do conjunto habitacional aqui perto.

Embora não celebre feriados religiosos, compro presentes e faço embrulhos elaborados para dispersar hostilidades potenciais. Trato os mais próximos com uma diplomacia obstinada e resisto a qualquer provocação.

Por que a elegante mulher de casaco de pele, no mercado gourmet, precisa me atropelar com o carrinho para furar a fila?

Porque é dezembro.

E a enxurrada de emails com platitudes sobre boas intenções com remetentes que me ignoram o ano inteiro? Prefiro parcelar minha virtude em 12 prestações sem juros.

Encontrei centenas de manuais para evitar a tensão dos feriados - mas meu problema não é estresse e sim os estressados. Não concentro minhas expectativas em quatro semanas do ano. Não preciso comprar mais, comer mais ou reafirmar afeto só porque 70% da economia americana hoje depende de consumo e as lojas precisam faturar 35% de sua renda anual em dezembro.

Avisei a um outro casal que acaba de chegar para os feriados: Aqui em casa pode tudo - até ouvir a Celine Dion no último volume - menos brigar. Se vocês têm algum desacordo pendente, recomendo um hotel aqui perto.

Na impossibilidade de apressar o calendário, desliguei a secretária eletrônica. Com a minha sorte, alguém que tem uma bronca comigo desde a década de 70 vai decidir acertar contas este mês.

Uma amiga perguntou o que eu queria de presente de Natal. Não pensei duas vezes, antes de responder: "Janeiro."

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