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Lúcia Guimarães
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Falta elite

O problema de ser carioca e morar em Nova York é, às vezes, imaginar a cidade natal com expectativa pouco realista. Não falo do tamanho da economia, do maior mergulho nos índices de crime de qualquer grande cidade norte-americana ou no fato de a cidade de onde escrevo ter sido a metrópole dominante da segunda metade do século 20. Não é este tipo de comparação. Penso em elite, esta palavra que o PT transformou em palavrão com apoio de copiosas doações em espécie de setores da dita. É esperar demais que pessoas que compram até cuecas e pasta de dentes em Manhattan e mandam seus filhos estudar aqui importem certos hábitos da elite local?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2015 | 02h05

Contemplava com um nó na garganta a imagem de Maria Terezinha de Jesus segurando a fotografia amassada de seu caçula de 10 anos, Eduardo, cuja morte ela conta que descobriu quando parte de seu crânio foi projetada para a sala, tal o impacto do tiro de fuzil que ele tomou pelas costas, sentado na porta de casa, no Complexo do Alemão, no dia 2. Comecei a ouvir no rádio uma reportagem destas que desafia as vias lacrimais: um grupo de músicos frequenta prisões de Nova York ajudando detentas mulheres a compor e gravar canções para filhos pequenos que mal podem visitá-las ou ter contato físico com elas.

O projeto que visita as prisões se chama Lullaby, canção de ninar, e é patrocinado pelo Carnegie Hall, a lendária casa de concertos, um dos palcos musicais mais cobiçados do mundo. O teatro foi construído em 1891 por Andrew Carnegie, um empresário que chegou a ser mais rico do que Bill Gates e doou quase 90% de sua fortuna. Carnegie não era um anjo, foi de fato incluído na galeria dos robber barons, os homens que acumularam fortuna à custa de manobras questionáveis e monopolistas, na segunda metade do século 19, nos Estados Unidos.

Enquanto ouvia as canções e entrevistas com as presas, pensava na ironia do dinheiro do empresário odiado por sindicatos financiando um programa que mistura músicos bem-educados aos descartados da sociedade. O Projeto Lullaby é uma iniciativa modesta para restaurar humanidade num sistema de justiça criminal hoje incompatível com os ideais democráticos que fundaram o país.

Voltei à cobertura da tragédia da morte de Eduardo, li que o governador do Estado do Rio tinha rapidamente se comprometido a pagar as despesas da família Ferreira para enterrar o menino em Corrente, no Piauí, e pensei, é uma admissão de responsabilidade, afinal a Polícia Militar está sob a jurisdição do Estado. Comecei a pesquisar sinais de contato pessoal entre o governador e o casal que perdeu o filho, Maria Terezinha, que trabalha como doméstica em Copacabana e no Recreio, e seu marido, o ajudante de pedreiro José Maria Ferreira de Sousa. Não encontrei.

Concluí ingenuamente que o papel de solidariedade e pacificação no caso seria mais apropriado para o prefeito. Afinal, o luto de pais por uma criança não conhece distinção federal, estadual ou municipal. Enquanto o Complexo do Alemão era cenário de protestos com bandeiras brancas, voluntários distribuindo ovos de Páscoa e crianças desfilando com cartazes que diziam "Menos bala, mais amor" e "Não quero morrer", as contas de rede social do prefeito carioca se ocupavam de autocongratulações com obras inauguradas, referências aos 450 anos do Rio e a um museu futurista na Cidade Olímpica. Só triunfo. O futuro, aliás, preocupa o prefeito que, segundo o líder de seu partido, é candidato a presidente assim que extinguirem a chama olímpica no dia 21 de agosto de 2016.

Seria improvável uma criança num conjunto habitacional no Harlem ter seus miolos estourados numa batida policial sem que o prefeito Bill de Blasio aparecesse para sinalizar duas coisas: a dor da tragédia é de todos e a polícia não é o inimigo.

Pensei em telefonar para um clínico-geral amigo, no Rio, e pedir que fizesse a gentileza de dar um pulo à residência do prefeito para tomar seu pulso. Quem sabe, um mal-estar passageiro explicaria a insensibilidade do líder de um Rio de coração partido com a brutalidade que ceifou a vida do aluno do Ciep de Olaria, do menino cheio de sonhos que ia começar cursos de inglês e informática na semana que vem.

Na cena final do filme Tempestade de Gelo, de Ang Lee, um pai, horas depois da morte trágica do filho de um amigo, se vira para o banco de trás do carro dirigido pela mulher. Ele não pronuncia uma palavra, mas o olhar que planta nos dois filhos diz tudo.

Lembrei da cena do filme e me ocorreu que o prefeito pensaria na boa fortuna de poder passar a Páscoa com seus filhos. Quem sabe, teria um encontro reservado com o casal Ferreira, longe das câmeras. Quem sabe, um dos empresários financiadores de suas campanhas doaria, a seu pedido, bolsas de estudo para os outros quatro filhos do casal. Seriam gestos simbólicos, longe de solucionar os horrores da rotina no Alemão. Seriam também um sinal da consciência de que o prefeito, nestas horas, é a UPP moral de uma cidade.

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