Falta de estômago para ir mais fundo desaponta

O filme Bling Ring é um exemplo perfeito do cinema soft e alusivo de Sofia Coppola. Baseada em reportagem da revista Vanity Fair, a história é a de um grupo de adolescentes que entra em casas de celebridades para furtar produtos de grife e dinheiro. Invadindo mansões de gente como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Audrina Patridge, os rapazes e moças fartavam-se de produtos Prada, Birkin e Louboutin. E também levavam dólares que encontravam pelo caminho.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2013 | 02h14

Sofia procura manter tom neutro ao mostrar o grupo. Apenas observa aqueles rapazes e garotas bem nutridos que costumamos ver nos filmes highschool americanos. Autoconfiantes (ao menos em aparência), meio desligados do mundo, interessados em roupas de marca, namoricos e baladas, eles vivem plugados full-time em seus aparelhinhos eletrônicos.

A diferença, aqui, é que o grupo simplesmente "passa ao ato", como se diz em psicanálise. Não apenas cobiça, mas se apropria daquilo que deseja. Há dois tempos no filme, e eles são intercalados na tela. Num primeiro, vemos a turma em ação. Num segundo, eles já foram apanhados e estão respondendo na justiça por seus atos.

Existe, claro, um comentário nem tão sutil assim de uma das implicadas. Ela entende que, furtando celebridades, no fundo roubou-lhes a fama e tornou-se ela própria uma dessas figuras da mídia contemporânea. Estamos em plena era do espetáculo (o pobre Guy Debord, que forjou o termo em 1968, não poderia imaginar o que viria depois). Ser conhecido é o que conta.

Como crônica de costumes, Bling Ring é interessante. Mas, como acontece com frequência no cinema de Sofia, ela não mostra estômago para descer mais fundo nos problemas. Não é uma mergulhadora. Às vezes, esse nado de superfície funciona, como em Encontros e Desencontros, talvez seu melhor trabalho. Em outras, deixa uma sensação de desapontamento ao final, como é o caso deste Bling Ring. Em mãos mais ambiciosas, poderia ser um raio X poderoso da alienação contemporânea, mas, com Sofia, revela-se apenas uma interessante crônica de costumes, e pouco mais.

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