Falsos confetes

O PIB de 7,5% é uma distorção estatística, um holograma eleitoral, um amor de carnaval. Tal crescimento em 2010 se explica em boa parte por que o de 2009 tinha sido negativo, efeito do que foi muito mais que uma marolinha na produção brasileira. Com os gastos e isenções do governo, o consumo puxou a recuperação - e puxou também a inflação, que ficou em 6% no IPCA dos últimos 12 meses, mostrando como a cultura da indexação persiste na economia nacional. Os números reais são os deste ano, 2011, com um crescimento que mal passará de 4,5%, conta externa deficitária, investimentos ainda abaixo de 19%, renda per capita equivalente à do México. Não são uma Quarta-Feira de Cinzas, mas estão longe de justificar os confetes que colorem a mídia chapa branca.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2011 | 00h00

Chegamos ao carnaval, afinal, e o governo Dilma ainda não começou. Mas, dirão, ela prometeu cortes nas despesas públicas e deu aumento no Bolsa Família. Isso não é governar. Ninguém sabe de onde vão ser tirados os R$ 50 bilhões do ajuste, ou melhor, não se sabe nem sequer se vão ser tirados. E o aumento no Bolsa Família tem um impacto anual que equivale ao que o governo paga de juros em uma semana. Usando outro parâmetro: os R$ 2 bilhões a mais representam 0,5% do que o governo tem em reservas financeiras para manter o fluxo de dólares para cá, pois eles cobrem os custos das importações. Aliás, os estrangeiros investem no Brasil para que os brasileiros comprem mais produtos estrangeiros. Aumentar a produtividade, portanto, não é o foco da política econômica.

Essa tática de Dilma é a mesma de seu antecessor, em cujo ombro continua sentada, e o problema é que não se trata do ombro de um gigante... Consiste em agradar aos agentes financeiros de um lado e acariciar os carentes sociais do outro. Significativamente, no dia em que ela anunciou o aumento do Bolsa Família, só conseguiu um único momento de júbilo: quando citou Lula. Enquanto isso, o ex-presidente levava R$ 200 mil para fazer uma "palestra", na verdade um autoelogio nos mesmos termos que usou e abusou durante oito anos de poder. Será que ele vai dividir esse dinheiro com alguém que não seja de sua família? Se Dilma acha que o carisma do mentor é suficiente, está em apuros.

Conheço muita gente que, como eu, é obrigada a rir para não chorar quando se diz que "o ano só começa depois do carnaval". Só se for 2012, pelo que já trabalhamos até aqui. Não ter aproveitado os primeiros 70 dias de governo para lançar projetos sérios de reformas política, tributária e educacional, indo para tanto à TV, ao Congresso e às instituições sólidas da sociedade civil, vai custar caro a Dilma e ao Brasil. O PMDB fez balões de ensaio murchos na questão da reforma política; o governo, em especial o ministro Guido Mantega, não consegue esconder que gostaria de criar ou recriar um imposto; e o único item mencionado pela presidente na área da educação, um programa de bolsas para o ensino técnico, era tema de campanha da oposição.

Mais grave ainda é o que se vê naquilo que os bajuladores dizem ser sua especialidade. A infraestrutura brasileira não está pronta para sustentar um crescimento de 4,5%, imagine um de 7,5%. Repito, quase todos os sistemas estão flertando com o colapso: rodoviário, aeroviário, energético, portuário, ferroviário, turístico, prisional, etc. Daqui a pouco mais de três anos teremos uma Copa; daqui a pouco mais de cinco, uma Olimpíada. Os atletas terão suas medalhas, mas os cidadãos torcerão para não passar vergonha.

Cadernos do cinema (1). A melhor coisa do Oscar foi Anne Hathaway, charmosa, divertida, desfilando vestidos lindos em sequência, piscando para Kirk Douglas, cantando e encantando. Os prêmios foram "déjà vu" como a maioria dos filmes: praticamente todas as previsões se confirmaram, exceto uma em que jamais botei fé, a de que o melhor diretor seria David Fincher por consolação. Foi Tom Hooper, de O Discurso do Rei, o grande vencedor da noite (melhor filme, diretor, ator e roteiro original). Colin Firth e Natalie Portman eram apostas fáceis, assim como Christian Bale e Melissa Leo, ambos de O Vencedor.

Foi bom ver A Origem levando os prêmios ditos técnicos, como fotografia (e a cinematografia digital do filme é realmente o que tem de mais original). Mas não foi bom ver A Rede Social levar apenas roteiro adaptado, montagem e trilha sonora, afinal tem um tema atual com alguns diálogos velozes, e Bravura Indômita não levar nada. O Discurso do Rei ganhou porque é o velho e bom cinemão de atores com um tema ainda mais clássico, a "superação de limites", no caso a gagueira do rei. Já o documentário Trabalho Interno é ótimo.

A cerimônia não teve os grandes momentos cômicos do passado (Bob Hope, Billy Cristal, Steve Martin), mas foi ágil e teve muitas mulheres lindas, além de Anne, com destaque para Mila Kunis. E o que seria do cinema sem as beldades?

Cadernos do cinema (2). Vendo o filme Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, pensei que iria ouvir a qualquer instante uma paráfrase de Rousseau: "O ser humano é bom, a sociedade é que o prostitui".

Lágrimas (1). Duas atrizes de personagens muito mais memoráveis morreram nesta semana. Annie Girardot fez nada menos que Rocco e Seus Irmãos, de Visconti, e Viver por Viver, de Claude Lelouch, para citar apenas dois filmes. Jane Russell foi proscrita pela censura de Hollywood quando apareceu em O Proscrito, de tão sensual, e mais tarde, por ironia, foi a morena inteligente de Os Homens Preferem as Loiras, baseado no livro que Anita Loos escreveu inspirada em H.L. Mencken, e no filme a loira é Marilyn Monroe.

Lágrimas (2). Moacyr Scliar, que morreu no domingo aos 73 anos, era um tipo de escritor raro no Brasil: prolífico, profissional e independente. Isso significa que escreveu muitos livros, sempre com um padrão mínimo de qualidade e nos mais diversos gêneros (conto, romance, infanto-juvenil, crônica, ensaio), e era capaz de resenhar os colegas sem corporativismo nem a favor nem contra, atendo-se à leitura sincera que fazia de cada obra.

Gosto de muitos contos, da ousadia dos ensaios de Saturno nos Trópicos (em que contraria a ideia de que a vocação da literatura brasileira é ser solar e leve), de sua defesa de grandes médicos públicos como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas (que sociólogos erradamente acusam de cientificismo e até racismo) e, mais importante, de livros como O Centauro no Jardim (1980), alegoria nada festiva do judeu imigrante dividido entre desejos individuais e deveres coletivos, à la Isaac Bashevis Singer. Scliar foi um cavalheiro como pessoa e como intelectual. Já não se fazem muitos por aí.

Uma rosa para Aracy. Diante dela, o grande Guimarães Rosa era apenas o "João Babão". Aos 30 anos, cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha, o escritor conheceu Aracy Moebius de Carvalho. Ele era casado, ela tinha sido casada. Era funcionária do setor de passaportes, poliglota como ele. E se apaixonaram. Rosa a amou como não amara a primeira mulher, Lígia, o que provoca ciúmes nas herdeiras até hoje. Aracy enfrentava uma lei de Getúlio Vargas e permitia entrada de judeus no Brasil, ajudando-os a escapar da fúria nazista, com apoio de Rosa. Fez isso até 1942, quando o Brasil virou casaca, mas o casal precisou ficar quatro meses em Baden-Baden até voltar - e que belo romance ou filme não daria essa história!

Celebraram casamento no México, porque o Brasil proibia divórcio, e ficaram juntos até a morte de Rosa, em 1967, ele sempre apaixonado, exaltando sua "boquinha" e seus "pezinhos" nas cartas. Foi a ela, claro, que dedicou sua obra-prima Grande Sertão: Veredas (1956), ela que o ajudava com revisões e opiniões, como Carolina ajudava Machado. (Que curioso, nossos dois maiores escritores foram felizes no amor.) Aracy morreu na quinta, aos 102 anos. Morreu, não, diria Rosa; encantou-se.

Por que não me ufano (1). Li bedéis da imprensa se queixando da cobertura da aposentadoria de Ronaldo, que teria mentido ao dizer que não podia tomar remédio contra o hipotireoidismo (só que foi o que disse o médico do Milan, Daniele Tognaccini: "Para manter o peso teríamos de injetar tiroxina, algo que daria como positivo no exame antidoping"). Mas, não, a grande história para estudar nessa disciplina é o tratamento que o jogador recebeu por quase 15 anos da imprensa de seu país. Disso é que há muito a aprender.

Por que não me ufano (2). Transcrevo carta eletrônica de um leitor sobre minhas críticas à classificação de classe média para uma família que ganha R$ 1.500 por mês: "Concordo plenamente com seu conceito de classe média e abomino o sistema de medição, tanto do IBGE quanto do IPEA. Durante o governo FHC, eu, aposentado, era classe média: ganhava o equivalente a 10 salários mínimos, pois durante 35 anos contribuí sobre o teto máximo. Com o andar da carruagem, recebo hoje cerca de quatro salários mínimos (R$ 2.000) e não me considero mais classe média, pois não posso poupar, viajar em férias e nem comprar um carro novo. Nesta situação encontram-se milhões de brasileiros."

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