Falso texto de Neruda circula na rede

Há um texto atribuído ao chilenoPablo Neruda (1904-1973) circulando na Internet, intituladoQuem Morre?. Mas esse é só mais um caso de falsa atribuição,que já fez outras ilustres vítimas. Quem garante é a própriaFundação Neruda, instituição que cuida da obra do ganhador doPrêmio Nobel de 1971. Distribuído por e-mail, com texto centralizado, dá aimpressão de ser uma poesia. Mas é prosa. E, na opinião dotradutor e escritor Eric Nepomuceno, da pior qualidade."Qualquer cristão que tenha lido Neruda uma única vez na vidasaberá que ele jamais, sob hipótese alguma, seria desumano aponto de cometer semelhante barbaridade!" Em meados de 2000, o também Prêmio Nobel García Márquezconvocou a imprensa para negar a autoria de Marionete, quetambém ganhou vida na Internet. "O que pode me matar não é ocâncer, mas a vergonha de que alguém acredite que eu tenhaescrito uma coisa tão cafona." "O pior é que qualquer um que tenha lido pelo menos umlivro e meia dúzia de entrevistas de García Márquez deveria tera obrigação de identificar a fraude - no entando, muita gentequalificada deixou-se levar pela baboseira", completaNepomuceno. Um apócrifo mais antigo, cuja possível origem remonta,segundo uma das versões, aos anos 50, envolveu Jorge LuisBorges. Ele não escreveu Instantes ("Se eu pudessenovamente viver a minha vida,/ na próxima trataria de cometermais erros./ Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais,/seria mais tolo do que tenho sido"). Sua viúva, Maria Kodama,chegou a acionar a Suprema Corte argentina para não receberdireitos autorais por ele. "As falsas atribuições acontecem porque em geral sãomedíocres e precisam do respaldo de um nome famoso para seremlevadas em conta", acredita o poeta e tradutor Ivo Barroso. Ele acredita que a "predominância", pelo menos emversões em português, de atribuições a escritoreslatino-americanos esteja na proximidade das línguas: o espanholseria mais fácil de imitar. "É mais fácil detectar se um textofoi traduzido do inglês (pela estrutura da língua) do que se foitraduzido do espanhol", explica. Nepomuceno diz que não temdados suficientes para chegar a uma conclusão, mas arrisca quetalvez a imagem "exótica" dos latino-americanos favoreçam aaceitação desses apócrifos. "Somos, acima de tudo,desconhecidos e desprotegidos." Para a crítica Leda Tenório da Mota, no entanto, Nerudafoi bem imitado. "Carrega algo do senso da ´auto-ajuda´ quesempre caracterizou este poeta algo menor." Ela ainda lembraque as falsificações fazem parte da história da literatura,envolvendo inclusive nomes importantes. "O poeta inglês doséculo 19 Thomas Chatterton pretendeu que poemas seus eram demonges medievais; Pierre Louys, que circulava próximo de Valéry,pretendeu que suas Chansons de Billitis eram traduções do grego.Borges fez crer que Pierre Ménard era um simbolista francês." Outro caso recente de falsa atribuição, lembra Barroso,foi a publicação, na França, de La Chasse Espirituel,atribuída a Rimbaud e escrita por dois estudantes da Sorbonne. Ao lado das falsificações, o mundo dos livros convivetambém com o que pode ser chamado de "pegadinha intelectual".No ano passado, a editora da Unesp comprou os direitos epublicou A Vida Sexual de Immanuel Kant, supostamente deautoria do também filósofo Jean-Baptiste Botul, criador dacorrente de pensamento "conhecida" por botulismo. Na verdade,Botul não passa de uma invenção do escritor - e brasilianista,por acaso - Frédéric Pagès.Veja abaixo os dois textos: O texto falso Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouvemúsica, quem não encontra graça em si mesmo.Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não sedeixa ajudar.Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda demarca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa comquem não conhece.Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negrosobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de umredemoinho de emoções (...).O texto verdadeiro No páramo o homem viviamordendo terra, aniquilado.Fui direto ao covilmeti a mão entre os piolhos,caminhei entre os trilhos atéo amanhecer desolado,dormi sobre as duras tábuas,desci da faina na tarde,me queimaram vapor e iodo,apertei a mão do homem,conversei com a mulherzinha,portas adentro entre galinhas,entre trapos, no cheiroda pobreza abrasadora(Trecho de Canto Geral)

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