Falso dilema

Nós temos palhaços em atividade constante entre nós, que estão muito acima dos palhaços de qualquer outro grande país.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2011 | 00h00

(H.L. Mencken)

O livro mais vendido na categoria de não ficção na Amazon na sexta-feira era Where"s the Birth Certificate? - The Case That Barack Obama Is not Eligible To Be President (Onde Está a Certidão de Nascimento? - O Argumento de Que Barack Obama Não É Elegível para Ser Presidente). O livro subiu para o primeiro lugar nas pré-encomendas, porque só será lançado no dia 17 de maio. Isso mesmo, será lançado, com esse título. O autor é Jerome Corsi, um mentiroso patológico com longo currículo de promoção de teorias conspiratórias, que, na campanha presidencial de 2008, foi bem-vindo na rede Fox para alertar o eleitor sobre a - inexistente - dúvida quanto ao local de nascimento de Barack Obama.

Se o exasperado presidente americano achou que ia colocar um ponto final no que chamou de "bobagem" da certidão... não, Obama não é ingênuo a ponto de imaginar que o obscurantismo racista por trás das acusações seria aplacado por fatos e documentos.

Na mesma coletiva em que se autocongratulou por ter "forçado" o presidente a apresentar sua certidão de nascimento, o execrável Donald Trump engatou uma primeira e já arrancou a próxima rodada circense: cadê o histórico escolar de Obama? Se ele era mal aluno na primeira faculdade, como entrou para Harvard e Columbia? Racismo!, acusaram o David Letterman e Fareed Zakharia, o comentarista da Time. Pensando bem, chamar Trump de palhaço é insulto para quem é palhaço profissional e faz as pessoas rirem de maneira benigna.

"Trump quer ser o novo McCarthy", disse Bob Woodward, o jornalista celebrizado pela investigação do escândalo Watergate. Os anos 70, como vão longe. Os repórteres políticos sérios corriam atrás dos fatos e não pegavam carona no avião do dono de cassinos, numa derrubada de fronteira entre a cobertura jornalística de uma campanha presidencial e de um reality show. O próprio Trump, na sua coletiva, aproveitou para promover seu programa, que passa aqui na NBC.

É doloroso assistir ao espetáculo de contorcionismo dos jornalistas. "O show de Trump já se esgotou?", pergunta o New York Times. O show de Trump é uma coprodução do Times, do Wall Street Journal, Washington Post, dos telejornais e das revistas, os mesmos que orgulhosamente publicam anúncios, cada vez que ganham um prêmio Pulitzer ou Peabody.

No dia 20 de março, jornais e TV"s da Flórida e agências de notícias com exceção de uma, decidiram ignorar o pastor Terry Jones, um radical que comanda uma seita seguida por um punhado de lunáticos, a maioria, seus parentes, quando ele avisou que ia encenar o "julgamento " do Alcorão. O livro sagrado muçulmano foi "condenado" e queimado. Jones não teve o sucesso de Donald Trump de atrair a mídia para sua encenação. Mas, Andrew Ford, um repórter freelancer de 21 anos da Agência France Presse, foi lá e redigiu um texto curto. No dia 10 de abril, multidões enraivecidas assassinaram 24 pessoas, inclusive 20 funcionários da ONU em Mazar-i-Sharif, no Afeganistão. O telegrama da France Presse, assinado por Ford e ignorado nos Estados Unidos, tinha decolado mundo afora, e o presidente afegão Hamid Karzai afiou seu oportunismo ao destacar o incidente, inflamando os ânimos na véspera do massacre.

Alguns comentaristas chegaram a culpar o repórter inexperiente e um deles, na Forbes, acusou: "Quando o Jornalismo 2.0 Mata." É claro que o rapaz não é responsável pelo sangue derramado em Mazar-i-Sharif. Assustado com a súbita notoriedade, Ford argumentou que era melhor ter havido ao menos uma testemunha objetiva no local do que deixar outros distorcerem o fato de acordo com o próprio interesse.

O intervalo de 11 dias entre o gesto de Terry Jones e o massacre afegão despertou a curiosidade de Steve Meyers, o editor do site de mídia Poynter.org e o que se seguiu foi uma discussão sobre a diferença entre suprimir fatos e tornar-se instrumento de propaganda para indivíduos que, como Jones, são radicais fabulistas e figuras marginais.

Donald Trump não é um marginal, no sentido comum da palavra. Mas ele é um radical fabulista. O fato de ser dono de prédios, campos de golfe e cassinos, por si só, não lhe confere credibilidade. Quando Obama surpreendeu os repórteres sonolentos no briefing matinal da Casa Branca, e foi direto ao assunto da certidão, ele alfinetou a audiência de jornalistas. Lembrou que não consegue entrar em cadeia de TV quando anuncia iniciativas relevantes. Mal Obama virou as costas, em todos os canais, pipocaram repórteres choramingões perguntando: será que a certidão coloca um ponto final à controvérsia?

Que controvérsia? O local de nascimento de Barack Obama nunca esteve em dúvida. Foi a imprensa que se apresentou como publicitária de um radical que fatura tocando fogo na verdade.

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