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Falsidades

A culpa é do cinema americano, que espalhou pelo mundo hábitos e convenções que o mundo nunca teve, e erros que se eternizaram, é verdade, com a nossa cumplicidade

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 20h59

O polegar opositor não era apenas o dedo que começara a nossa transformação de bicho em gente, permitindo ao pré-homem catar piolhos nos pelos do próximo, segurar um bastão com firmeza para usá-lo como arma na cabeça do inimigo e outras conquistas da civilização. Através dos anos, o dedão opositor foi adquirindo outras utilidades, como a da sinalização a distância. No Coliseu de Roma, por exemplo, polegar virado para baixo significava que o público queria ver a vitória do leão, polegar para cima a vitória do gladiador, aos gritos de “poupem o desgraçado!”. 

Fora do Coliseu, a comunicação também funcionava. Polegar para cima queria dizer “positivo!”, “legal”, “tudo bem em casa?”, etc. Polegar para baixo: “A coisa está preta”. Não faz muito, surgiu um historiador revisionista com a tese de que era o contrário: polegar pra baixo, vitória do gladiador; polegar pra cima, vitória do leão. Tudo bem. Mas não podemos deixar de pensar nos gladiadores – e também nos leões, claro – injustiçados pela confusão histórica e a falta de clareza das regras do Coliseu. 

A culpa é do cinema americano, que espalhou pelo mundo hábitos e convenções que o mundo nunca teve, e erros que se eternizaram, é verdade, com a nossa cumplicidade. Desde que começamos a ir ao cinema, nunca nos ocorreu protestar contra as falsidades que o cinema nos impingia com a maior cara de celulose. Brigas entre mocinho e bandido sem nenhuma proteção nos pulsos que, depois de se soquearem até arrasarem o saloon, não ficavam com uma marca no rosto, e ficavam com todos os dentes. Durante as lutas, ouvia-se um som jamais reproduzido fora de uma trilha sonora de filme, o som falso de punho se chocando com queixo. 

Em filme americano, depois de receber uma notícia surpreendente por telefone, o protagonista invariavelmente olha para o fone como se esperasse ver ali o que o surpreendera. Não há notícia de que em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo depois da invenção do telefone, alguém tenha feito o mesmo gesto. E quantas vezes não invejamos o personagem que, com pressa para sair de um restaurante, deixa o dinheiro certinho na mesa sem precisar olhar a conta? Só em Hollywood. 

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