Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Falsa onipresença

Quando esta coluna entrar no ar, a colunista já estará voando há algumas horas. Certamente acordada e espremida com desconforto no pau de arara que insistem em chamar de voo comercial.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2015 | 02h00

Uma tendinite aguda impediu a decolagem uma semana antes. Enquanto me tratava, ouvi de amigos e parentes: Você, ao menos, pode trabalhar de qualquer lugar, desde que tenha wi-fi. De fato, na semana passada, escrevi sobre a sabatina de Hillary Clinton numa comissão do Congresso. Não pude assistir a trechos longos do depoimento online nem esperava conseguir, considerando a qualidade da operadora carioca cujo nome não cito com o mesmo horror que não nomeio Voldemort, o vilão de Harry Porter.

Sei procurar minhas fontes e graças à rede social, sigo figuras que me mantêm melhor informada. Então, é isso aí, no globalizado planeta digital? Visão da Lagoa Rodrigo de Freitas, análises da campanha em Iowa? Uma estadia fora da minha base, mais longa do que qualquer outra que tive, desde o século passado, me deixou sem norte do noticiário. Comprei jornais, assisti TV a cabo e deixei o laptop aberto em vários sites de mídia brasileira e norte-americana.

Só um hábito me fez compensar pela falta de imersão geográfica: deixar uma rádio nova-iorquina favorita sintonizada online. Rádio é um meio mais íntimo do que a TV e dá a ilusão de proximidade ao que estão narrando. Alguém poderia sorrir com benevolência, sugerindo que é escapismo ficar ouvindo um locutor de voz aveludada contando da chegada de um bicho ao zoo do Bronx. Realmente, nunca antes na história das minhas viagens a este país, desde que parti, testemunhei uma tempestade perfeita como esta, bem resumida na entrevista que três economistas deram a Ricardo Grinbaum e Alexa Salomão do Estado: recessão sobre recessão, risco de colapso das contas públicas e de desestruturação do setor produtivo. Quem há de me culpar por deixar o rádio online sintonizado em animais adoráveis?

Um ditado repetido com frequência em Washington é atribuído a Tip O’Neill, poderoso democrata que presidiu a Câmara em 1977 a 1987: “Toda política é local.” Em outras palavras, na municipalizada vida norte-americana, eleitores não se seduzem por matrizes de macro-abstrações e sim pela solução de problemas imediatos.

Na era da onipresença digital, entendi que o jornalismo continua local. Enquanto tomava água de um coco real com vista espetacular para o Morro Dois Irmãos, imaginando como teria sido o dourar das folhas que vejo da janela do quarto em Manhattan, na estação mais bonita do ano, lembrei das palavras de um economista. Em 2011, passei parte de uma tarde numa sala de aula da New York University, com Edward Glaeser, autor de O Triunfo das Cidades. Sobre o clichê da inutilidade de fronteiras na globalização, Glaeser perguntou: “Já que é possível criar e inovar de qualquer parte do mundo, que diabos estão fazendo os jovens que se amontoam no Vale do Silício, pagando alugueis exorbitantes?”

Longe da base, em contato com versões reducionistas da vida nos Estados Unidos, sou lembrada de que nada substitui a imersão geográfica. A rede social e o acesso imediato a qualquer notícia transformaram todo internauta em analista e a oferta de opiniões é exponencialmente maior do que a procura. Volta e meia, brasileiros me encontram no Twitter para me ensinar o que acontece em Nova York ou Washington. Como uma ex-atleta que me explicou: Barack Obama é de extrema-esquerda. O tom às vezes condescendente confirma como a ignorância precisa da arrogância para prosperar. Na polarizada conversa brasileira, opiniões suplantaram fatos como base de argumentos.

Quando um mal-humorado motorista de táxi me devolver à base e o veterano porteiro com boa proteção sindical prestar o mínimo de ajuda com as malas, vou sentir familiaridade. Aquela que me permite saber que Obama só é de extrema- esquerda na bolha criada pela falsa globalização digital.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.