Falsa equivalência

Quem mais tem usado a tática de jogar carros contra pedestres na Europa? O Estado Islâmico

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2017 | 02h00

Nesta manhã de domingo, vou trocando de canal e assisto a conservadores apopléticos concordando com esquerdistas. Sou do tempo em que conservadorismo mainstream tinha mais simpatia por fatos e pela história. Os mais respeitados intelectos conservadores americanos não escondiam seu elitismo, o que implicava condenar incultura e mediocridade. Ser conservador não era ter chiliques anti-Hillary ou repetir clichês espalhados pelos papagaios de Rupert Murdoch, era defender liberalismo econômico e conservadorismo social.

O conservador Richard Nixon criou a primeira agência nacional de meio ambiente porque ouviu cientistas, não ideólogos. O conservador George W. Bush, que foi agraciado por um eminente historiador presidencial com o título de pior presidente do país desde a independência, salvou a vida de milhões de africanos, depois de investir pesado no combate à aids, porque ouviu cientistas, não ideólogos. 

Ser conservador era patrulhar extremismo. Como ouço o historiador Tim Naftali lembrar, o Partido Republicano policiava extremismo nacionalista e racista nas suas fileiras com muito mais eficácia, na conturbada década de 1960, quando o notório conservador Lyndon Johnson assinou o ato que tornou crime a discriminação baseada em raça, sexo, religião ou nacionalidade. Ser conservador era, especialmente, acreditar na agência individual e não se fazer de vítima. Era dizer, bota a polícia atrás dos Panteras Negras armados, não choramingar, ai, meus sais, cada vez que a esquerda protesta num câmpus ou impede um nacionalista Trumpanaro de exercitar sua liberdade de se expressar propondo a supressão física de grupos de pessoas. Se os heróis espancados, presos e mortos lutando para conquistar igualdade racial nos Estados Unidos aderissem ao coitadismo como faz a pseudodireita hoje, reclamando de censura na rede social, os negros ainda estariam sentados no fundo do ônibus, usariam bebedores separados e, ocasionalmente, apareceriam pendurados numa árvore num Estado do Sul.

Neste domingo, vejo o habitualmente comedido Bill Kristol, do útero editorial conservador Weekly Standard, levantar a voz num bate-boca ao vivo na CNN com um defensor do indefensável. O ataque em Charlottesville foi um episódio de terrorismo doméstico, perpetrado por membros ou simpatizantes da mais antiga organização terrorista dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan. David Duke, ex-Feiticeiro Imperial da KKK, que, por um punhado de votos, conseguiu plantar seu traseiro racista no Congresso americano de 1989 a 1992, proclamou, vitorioso: “Charlottesville é um ponto de virada para cumprir as promessas do presidente Trump. Por isso, votamos nele, porque ele prometeu devolver nosso país”.

Nem um pio foi ouvido do campo de golfe onde um chefe de Estado supostamente teria pressa em se distanciar desse endosso. Imaginem se, em 1968, Bobby Seale, líder dos Panteras Negras, declarasse apoio à candidatura de Richard Nixon e conclamasse seus seguidores a votar nele. Nixon ficaria calado? Mas a reação do aficionado golfista foi dizer, “Condenamos nos termos mais enérgicos essa demonstração flagrante de ódio, preconceito e violência, de vários lados. De vários lados”.

Quantos lados tem essa forma geométrica? Um terrorista joga um carro contra manifestantes que protestam contra o nazismo e consegue correr do local depois de horas em que a polícia com armamento pesado assistia passivamente às batalhas de rua? Quem mais tem usado a tática de jogar carros contra pedestres na Europa? O Estado Islâmico. 

Não há equivalência moral, bradou, indignado, o então prefeito de Nova York nas horas após o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001. Hoje, o mesmo Rudolph Giuliani é mais um dos ex-conservadores deformados pela nova geometria moral. 

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