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Falência da linguagem inspira peça do americano Will Eno

'Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções' traduz a delicada experiência de viver

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h29

Um treinador de futebol, devidamente paramentado, prepara-se para uma coletiva de imprensa, mas, ao invés de falar sobre os problemas do time, desanda a comentar sobre a vida, o amor, a cidade. Minutos depois é a vez da funcionária de uma companhia aérea, que terá a missão de conversar com parentes de vítimas de um acidente - novamente, o inusitado acontece, pois ela prefere lembrar problemas pessoais, como a perda do pai.

As duas histórias fazem parte de um conjunto de cinco que compõem a peça Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções, que estreia hoje no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação. Em todas, prevalece o sentimento da resistência. "Sempre tive fascínio pelas pessoas que seguem adiante mesmo quando as coisas não vão bem", comenta o dramaturgo americano Will Eno, autor do espetáculo que, como vem acontecendo com a montagens de suas peças no Brasil, novamente tem a assinatura do ator Guilherme Weber e do tradutor e diretor Murilo Hauser, membros da Sutil Companhia de Teatro, responsável pelo lançamento do autor no Brasil há dez anos.

"Will trata de um tema que lhe é muito caro: a falência da linguagem, ou seja, quando não conseguimos expressar nossos sentimentos mais profundos", diz Weber.

Will Eno tem uma sensibilidade artística à flor da pele - sua inspiração nasce a partir de momentos banais ou de grande complexidade histórica. Adolescente, surpreendeu-se quando assistia a uma peça em que uma cadeira, ao invés de sumir magicamente de cena, puxada por um invisível fio de náilon, despencou no chão, por conta de uma falha. O fascínio se quebrou e mostrou ao jovem rapaz que a falibilidade também existia no fantástico universo da arte.

Outro exemplo compreende um tremendo desastre histórico. Na noite de 6 de maio de 1937, o gigantesco dirigível Hindenburg preparava-se para descer no campo de pouso da base naval de Lakehurst, em Nova Jersey (EUA), quando, às 19h30, um incêndio tomou conta da aeronave - como era utilizado gás hidrogênio, altamente inflamável, para mantê-lo no ar, bastaram 30 segundos para que tudo fosse reduzido a pó, deixando um saldo de 36 pessoas mortas. Em suas inúmeras viagens anteriores, o Hindenburg nunca sofreu ameaças de acidente, daí a enorme surpresa provocada pela sua destruição.

À espera de uma aterrissagem rotineira, o locutor da rádio WLS Chicago Herbert Morrison imortalizou o acidente ao narrar aquele meio minuto dramático. Sua descrição, pontuada pelo desespero, tornou-se clássica, especialmente quando, ao revelar sua incapacidade, pronunciou a expressão "Oh, a humanidade", que logo entrou para a cultura popular americana.

"Até hoje, é usada para expressar desesperança", conta o ator Guilherme Weber, que volta a interpretar em um texto de Eno - ele esteve em Temporada de Gripe, Lady Grey e Thom Pain, que foi indicada ao prêmio Pulitzer em 2005. "A partir disso, Will criou histórias curtas mas de forte impacto, que têm em comum a evidência de que a linguagem muitas vezes revela-se falha para expressar sentimentos profundos."

Da mesma forma que, na literatura, comenta-se que o conto tem de ser mais preciso que o romance por conta de sua forma enxuta, as cinco cenas de Ah, a Humanidade! estabelecem uma compreensão imediata com o espectador para, logo em seguida, surpreendê-lo com algo que fuja da conduta esperada. O primeiro texto, por exemplo, mostra aquele treinador que, na conversa com jornalistas, esquece do fracasso do time e prefere revelar seu amor por uma mulher.

Em seguida, surge um casal que vai gravar um vídeo para uma agência de encontros - antes de exibir suas qualidades para seduzir possíveis pretendentes, eles expõem suas vísceras sentimentais. A terceira cena é encabeçada pela funcionária da companhia aérea, encarregada de comunicar as causas da queda de um avião aos parentes das vítimas mas que se coloca na posição deles. Já a quarta história acontece com toda iluminação do teatro acesa para que a plateia participe da reconstituição de uma fotografia de guerra.

Finalmente, a última história faz lembrar a triste experiência teatral sofrida pelo adolescente Will Eno ao mostrar um casal supostamente dentro de um carro - na realidade, eles estão sentados em duas cadeiras, ou seja, presos ao código cênico que tem suas limitações. Revelada sua vulnerabilidade, tanto personagens como os próprios atores demonstram como as falhas estão ao redor, completadas pela dificuldade da intenção de comunicar.

"Todas as figuras da peça têm boa intenção e, mesmo em situações adversas, elas tentam recuperar sua normalidade. É essa forma de superar o fracasso e de lidar com a expectativa que transforma Will Eno em grande discípulo de Samuel Beckett", acredita Weber, que divide a cena com Celso Frateschi, Erica Migon, Renata Hardy e Fabio Mazzoni.

O mergulho na relação humana inspirou a direção de Murilo Hauser, que acalentava há anos encenar esses textos curtos do dramaturgo americano. Segundo ele, à medida que falam, os personagens abandonam o discurso tradicional a que estão acostumados para revelar seu universo pessoal. "O mundo particular de cada um vai tomando a cena", conta. "Por isso que é importante revelar ao público as características que revelam a quebra do código de comunicação."

Para isso, ele optou por um cenário que ocupe todo o palco, pós-apocalíptico e que remete àquele campo de pouso do Hindenburg, no longíquo ano de 1937: ao invés de passageiros desembarcando normalmente, pessoas pulando do dirigível em chamas. "O espaço quebra a rotina e mostra como os personagens das cinco histórias são como sobreviventes de catástrofes."

A desestabilização do cenário é uma marca do instigante teatro de Will Eno. Foi o que se observou na montagem de Temporada de Gripe, que estreou em São Paulo em 2003, dirigida por Felipe Hirsch. A trama acompanha a paixão de um homem por uma mulher mas, a partir do momento em que a relação começa a ruir, a encenação desabava visivelmente, ou seja, a iluminação tornava-se mais fria, objetos do cenário começavam a sumir, os bastidores do teatro que deveriam estar escondidos eram revelados ostensivamente.

"As regras não dão conta da existência, ele parece dizer", comenta Hauser. "Se em Thom Pain assistíamos à quebra dos códigos teatrais, aqui são os códigos dramáticos dos personagens que se desfazem."

Admirado por Edward Albee, um dos grandes nomes da dramaturgia mundial, Will Eno revela-se, como o mestre, também interessado em apresentar as complexidades da vida de uma forma poética e provocante.

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