Falar é agir

Cumprir a lei e acumular reputação limpa deixam de ser atributos valorizados pelo poder

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2018 | 02h00

A erosão da confiança na classe política é tão grande que, a cada novo despautério enunciado, vamos nos anestesiando com o pretexto, como esperar diferente de fulano ou sicrana? A imprensa inventou os crimes do injustiçado Sérgio Cabral? Lula sendo Lula. Impopularidade histórica explicada por antipatia ocasional? Temer sendo Temer.

Mas as palavras têm peso e o colapso do apreço pela verdade no discurso público que parte de Sucupirington deve assustar ainda mais semidemocracias imaturas como a nossa. Dada a fadiga geral de indignação, não é raro o comentarista político americano defender a tese de que tuítes não são políticas públicas, perseguir jornalistas não é autoritarismo e fustigar a Coreia do Norte não é aumentar o risco de confronto nuclear.

Não concordava com o raciocínio em 2017 e hoje discordo mais ainda. Na semana passada, um interessante pensador político publicou um ensaio defendendo o peso das palavras com sua elegância habitual. Jacob T. Levy é autor de vários livros e ensina teoria política na universidade McGill, no Canadá.

Como alguém que cresceu durante a Guerra Fria e conheceu exilados de uma ditadura comunista do Leste europeu, lembro, por exemplo, do peso de “Mr. Gorbachev, derrube este muro,” no discurso de Ronald Reagan, em 1987. Em que pese a parcela do público que se opunha à política externa de Reagan, especialmente na América Latina, ele contribuiu para aumentar o consenso sobre a defesa da liberdade nas antigas repúblicas soviéticas.

Levy recorda o tempo em que conservadores, ao contrário de sua mutação recente, pregavam a hoje exótica noção de que ideias têm consequências.

Política é persuasão e coerção. A coerção - quem paga imposto é preso ou enviado para uma guerra - depende, em parte, da fala política. Um cidadão arrisca sua vida para defender outros se confiar nas instituições, não apenas no poder de violência do estado.

A normalização da mentira nos últimos dois anos ameaça um pilar da democracia: a ideia de que a sociedade compartilha fatos e não precisa consultar sua tribo ideológica para ter certeza de que chove lá fora. Stephen T. Levy lembra que a diplomacia é exemplo da importância da fala na estabilidade do planeta. Ao sugerir que vai dar as costas para setenta anos de aliança do Atlântico Norte e xingar países de m..., o atual ocupante da Casa Branca torna seu país e o mundo menos seguros.

Depois de dois meses de abuso verbal via Twitter, o vice-diretor do FBI, um republicano, se aposentou aos tenros 50 anos. O recado é recebido pela burocracia federal. Cumprir a lei, manter distância da política e acumular décadas de reputação limpa deixam de ser atributos valorizados pelo poder.

Como a lei ou a coerção violenta não bastam para manter a paz social, além de fatos, sociedades compartilham certos tabus. Um deles foi quebrado com uma impudência estarrecedora num discurso na última segunda-feira. O presidente qualificou os democratas que não aplaudiam seu discurso para o Congresso como traidores. O estado é ele. Os fundadores dos EUA definiram traição como o crime mais grave contra a república, punível com a morte.

Igualar oposição a crime e traição, escreve Levy, não constitui apenas uma erosão de normas. É uma inversão das normas, alinhando a aspiração a fazer o que é certo com o que é que é essencialmente errado.

A incivilidade da fala é um dilema também para defensores do governo. Wall Street tapou o nariz para a defesa dos nazistas de Charlotte enquanto repetia, conseguimos nosso corte de impostos. Evangélicos taparam os ouvidos para a gravação sobre assalto sexual repetindo, vale a pena se conseguirmos mais um juiz na Suprema Corte para derrubar o aborto. Mas a fala que vem do topo sanciona ação e afeta o pacto social.

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